Há 90 anos nascia Mikhail Tal, que ficaria conhecido como o “Mago de Riga”, e que encantou o mundo do xadrez nas décadas de 50 e 60 com combinações absurdas. Apesar de enfrentar doenças a vida inteira, ficou décadas no topo, mesmo depois de perder o título mundial.
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| Fonte: Dutch National Archive |
Mikhail Tal é um dos maiores nomes da história do xadrez. Nasceu em Riga, 9 de novembro de 1936. Nos anos 1950, Tal explodiu no topo do xadrez. O mundo vibrou com o estilo dele e suas combinações puras. Mas existiam dois “Tals”. O Tal jovem atacava do primeiro ao último lance. O Tal mais velho virou um jogador posicional sólido.
De setembro de 1973 a outubro de 1974 ele ficou 95 partidas de torneio sem perder. Em janeiro de 1980, Tal foi o 3º jogador da história a passar de 2700 pontos de rating, depois só de Fischer e Karpov.
Tal foi campeão mundial por pouco tempo. Em 1960, com 23 anos, derrotou Botvinnik e virou o campeão mais jovem da história até então. Em 1961 perdeu a revanche, regra que ainda vigorava na época.
Quem conheceu Tal fala da personalidade dele: gente finíssima e muito engraçada. Dizem que uma vez, pediram autógrafo e ele assinou “Fischer” de brincadeira. “Ganhei tanto dele que tenho direito”, explicou piscando o olho. Depois assinou o nome certo também. Tal e Fischer tinham uma relação de respeito e amizade.
Para você ter uma ideia, numa partida, o jovem Bobby Fischer fala pra Mikhail Tal: “Me dá a mão aqui que eu vou ler sua sorte”. Tal estende a mão e Fischer encara a palma com cara de sério. “Seu futuro no xadrez vai ser brilhante. Você vai subir muito, vai até disputar um Mundial”. Tal sorri: “Que legal. Mas vou ganhar?”. Fischer diz: “Vai. Você ganha o match e vira campeão mundial." Tal: “Ótima notícia , Bobby. Valeu!”, mas Fischer retorna: “Espera aí! Tem mais uma coisa. Você vira campeão... mas depois perde o título pra um americano”, e solta um sorriso. Tal entende que o “americano” era o próprio Fischer. Finge que não pegou a indireta e se vira pro GM americano William Lombardy, do lado: “Parabéns, Bill. O campeão mundial vai ser você”.
Tal viveu doente a vida inteira. Tinha doença renal crônica e usava todo tipo de remédio pra aguentar a dor. Petrosian resumiu bem: “Tal é o mais saudável de nós todos. Qualquer outro já teria morrido com as doenças dele”.
Depois da queda da União Soviética, Tal morou com a família perto de Bonn, no oeste da Alemanha, durante um tempo. Em maio de 1992 jogou um torneio em Barcelona. Em junho foi a Moscou disputar um torneio blitz. De lá, não voltou mais pra casa.
No tabuleiro, suas partidas falam por si. Apreciemos alguns exemplos.
Ninguém nunca superou Tal no quesito iniciativa e sacrifício. Dentre tantas outras partidas dele que poderiam ser escolhidas, essa do match de 1960 contra Botvinnik é uma das que se destacam. As anotações a análises são do GM Jon Speelman.
Também reproduzimos a seguir o primeiro jogo publicado de Mikhail Tal.
Uma situação no Interzonal de Montetaxco em 1985, no México, mostra bem como Tal amava xadrez e como ele tinha sangue frio.
Na rodada 3, a partida de Tal contra Ahmed Saeed Saeed, dos Emirados, foi adiada na posição acima. Jogaram umas horas depois e Tal ganhou. Só que após a partida, depois de já ter mostrado ao adversário como se defender, eles perceberam que as peças estavam erradas: os peões pretos na ala da dama estavam em a6 e b7 quando deviam estar em outro lugar. Saeed abriu uma reclamação e Tal concordou em recomeçar a partida do zero. Tal aceitou de boa... e ganhou de novo, mas de um jeito diferente!
Mikhail Tal faleceu cedo, mas deixou um legado que não envelhece. Ele jogava xadrez como quem vive intensamente: arriscando, atacando, encantando. Não era vidrado na teoria perfeita, apesar de conhecer muito suas linhas preferidas. Ele preferia buscar iniciativa, complicações e, principalmente, a beleza do jogo. Por isso até hoje ficamos maravilhados ao estudar as partidas dele.
Tal não era só o “Mago de Riga”; ele era prova de que é possível jogar xadrez e vencer sendo criativo, corajoso e, acima de tudo, amando o que faz. Sangue frio no tabuleiro, coração quente fora dele. Se essas histórias te fizeram olhar o xadrez com outros olhos, então o Tal ganhou mais uma partida: dessa vez, contra o esquecimento.


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