Jogadores amadores raramente defendem bem. Eu entendo: defender é chato, estressante e cansativo. Nós amadores jogamos por diversão. Por que focar no que é ruim se dá para atacar e se divertir? Por isso, a maioria ataca muito melhor do que defende.
Mas com profissional é diferente. Ele também gosta de xadrez, mas precisa de bons resultados para pagar as contas. E, para ter resultado, é necessário dominar tudo, até o que não é prazeroso. Neste artigo, vamos entender melhor o mundo profissional. Vou mostrar quatro técnicas de defesa e, quem sabe, demonstrar que talvez a defesa não seja tão sem graça assim.
Simplifique e pare o melhor do mundo
Esta é a 14ª partida do confronto Kramnik x Kasparov em Londres, quando Kramnik se tornou campeão mundial. Se coloque no lugar dele: você está ganhando por 2 a 0 na série e falta pouco para o título. Só que você jogou mal a abertura e agora está pior contra um dos jogadores mais agressivos da história. Se ele vencer hoje, amanhã você joga de pretas contra um Kasparov embalado e confiante. E aí, o que você faria? Como se defender?
Kramnik viu que as pretas ameaçavam ...Rc8-c5, com pressão contínua no peão fraco de c4. Defender isso seria cansativo e arriscado. Então ele puxou os freios do jogo usando o primeiro método de defesa: simplificar. Ele sacrificou um peão com 29.c5!?. Depois de 29…Rxc5 30.Rxc5 Bxf6 31.Qxf6 dxc5, a posição simplificou para um final aceitável:
Tudo bem, as pretas têm um peão a mais, mas as torres brancas ficaram muito ativas, e Kasparov tem várias fraquezas: o peão A, o peão C e, principalmente, o rei exposto. Kramnik fez uma boa jogada de profilaxia com 32.Kh2!, abrindo caminho para a torre, e segurou o empate com tranquilidade. Veja a partida completa:
Criando fortalezas
Outro método comum na defesa é criar uma fortaleza. Elas aparecem às vezes no meio-jogo fechado, mas são muito mais frequentes nos finais. O motivo é simples: com menos peças no tabuleiro, até uma defesa mais frágil pode ser capaz de segurar a posição.
Na posição abaixo, as pretas possuem um problema difícil: como impedir o rei branco de invadir pela ala da dama sem perder o controle do peão B?
O maior problema das pretas é que o cavalo em d6 ocupa uma casa que o próprio rei precisa. O rei preto tem que chegar a c6. Como fazer isso? Primeiro, devem arrumar outra casa para o cavalo.
As pretas jogaram 54…Nb7!, e seguiu 55.Nc8 Nc5 56.b7 Na6!. A casa a6 parece ruim para o cavalo, lá no canto. Mas o importante foi liberar c6 para o rei. Se as brancas tentarem 57.Rd3 Rd6 58.Rc4 Rc6, a fortaleza fica inquebrável. Veja o diagrama:
As brancas jogaram 57.Kf3 e tentaram quebrar a defesa das pretas por mais 40 lances, mas a fortaleza aguentou firme.
O contra-ataque como método de defesa no xadrez
Agora vamos para o terceiro método, talvez o mais divertido: o contra-ataque. Normalmente, até quem está começando acha fácil ver ideias de contra-ataque. No fundo, ele parece um ataque normal, e todo mundo gosta de jogar pra frente no xadrez, não é? Porém, às vezes, um contra-ataque pode ser organizado em situações inesperadas.
Vamos dar uma olhada na partida Aronian x Carlsen, da Sinquefield Cup 2014, com as brancas jogando:
As brancas têm um peão a menos nesse final de torres ruim. Aposto que a maioria dos jogadores amadores colocaria a torre atrás do peão e só esperaria. O que mais dá pra fazer com poucas peças no tabuleiro?
Só que Aronian achou um bom contra-ataque. Ele jogou 52.Kg2!. A ideia é atacar os peões pretos com o rei seguindo o caminho g2-h3-h4-g5-f6, assim que o rei preto for para a ala da dama. Contra jogadores menos experientes, isso facilmente seguraria o empate. Mas Carlsen mostrou a técnica dele de novo, embaralhou o adversário no final e venceu.
E “sabotar” o jogo do adversário?
O último método de defesa é quase desconhecido pela maioria dos amadores e entusiastas. É o que se chama de “sabotagem”. Sabotagem não é a mesma coisa que contra-ataque.
Na sabotagem você não cria suas próprias ameaças. Você só quer atrasar as peças de ataque, jogando pequenas pedras no caminho. Sabotar é jogar areia na engrenagem do ataque adversário. Veja um ótimo exemplo:
A posição de Vachier-Lagrave é bem ruim. O rei dele está exposto e as peças pesadas das brancas dominam o centro. A ameaça é Re5-e6, seguida de Qg6 xeque-mate. Mas existe um jeito de frear o ataque.
O francês jogou o ousado 51…Rf7!, atacando o peão fraco em f3. Agora 52.Re6?? leva 52…Rxf3+ com xeque, então as brancas têm que procurar outro plano, um mais lento. Quinze lances depois, a situação quase se repetiu:
De novo, Ding ameaça invadir o campo das pretas. Agora a ideia é Qb4-b7+, com mate rápido ou ganho de material. E de novo, Vachier-Lagrave acha o único lance que segura. Dessa vez, o próprio rei preto vira o sabotador!
As pretas jogaram o ousado 66…Kf6!, quebrando a coordenação das brancas. A torre fica sob ataque, e tanto 67.Qf5+ Kg7 quanto 67.Rf5+ Kg7 68.Qb7+ Kh8 não dão vitória direta. A partida acabou empatada no lance 88.
Conclusão
Defender é difícil, chato e cansa. Mas é uma habilidade que leva seu jogo a um novo patamar. Ao tentar defender, sempre tente definir primeiro o método: simplificar, montar uma fortaleza, partir pro contra-ataque ou sabotar? Depois que você escolhe o caminho certo, os lances aparecem com muito mais facilidade.
Claro, dá pra misturar tudo numa partida só. E muitas vezes deve. O Karpov fazia isso como ninguém: trocava de marcha na defesa. Alternava paciência com contra-ataques do nada, e adorava simplificar pra finais ruins, porém seguros.
Só que até jogadores fortes se perdem na hora de escolher o método. Vamos ver esses “tropeços defensivos” no próximo artigo. Enquanto isso, revise nossos artigos:

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