Como Richard Réti impactou os finais de xadrez

Na virada do século 19 para o século 20, um matemático austro-húngaro sacudiu o mundo do xadrez com ideias revolucionárias, algo que ficaria conhecido como hipermodernismo. Mas ele foi além, e produziu algumas das composições e estudos de xadrez mais interessantes já vistos.

Richard Réti nasceu em 28 de maio de 1889 em Bösing, atual Eslováquia, mas na época, Hungria. O pai dele era médico do serviço militar austríaco. Ele não foi o único da família que se destacou no que fazia: seu irmão, Rudolph Réti, foi um pianista notável, além de teórico musical e compositor.

Richard Réti (de agora em diante chamado apenas de Réti) estudou matemática na Universidade de Viena ao mesmo tempo em que se tornou um dos melhores jogadores de xadrez do mundo. Ele se tornou um dos principais promotores do hipermodernismo, inclusive tendo uma abertura batizada com seu nome: a Abertura Réti (1.Nf3 d5 2.c4), empregada por ele ao vencer o então campeão mundial José Raúl Capablanca no torneio de Nova York em 1924 – a primeira derrota de Capa em oito anos!

Réti também compôs diversos estudos de finais, cerca de 60 obras originais. Veremos alguns desses finais, mas antes, observe como ele era habilidoso em finais. Este primeiro exemplo traz uma posição do Campeonato Húngaro de 1907.


A famosa manobra de Réti

Esta composição é uma das mais clássicas e conhecidas da história do xadrez. À primeira vista, é difícil acreditar que as brancas conseguem empatar.

Eu sei, se é a primeira vez que você vê essa posição, sua mente explode. Mas depois que você entende a geometria e aplica bem a regra do quadrado, é possível ir além: o impossível já não parece mais tão impossível assim. Veja este novo estudo, talvez ainda mais impressionante que o primeiro.


Simples, porém belíssimo

Esta composição é bastante curta, porém finaliza com um último lance digno de cinema.




Pequenos erros não tiraram o brilho de seus estudos

É claro que, por viver em uma época sem análise de computador, algumas composições de Réti se mostraram falhas. Algumas simplesmente traziam uma solução incorreta, mas outras falharam num ponto quase irrelevante: ofereciam dupla solução. Embora não seja um erro propriamente dito, as regras das composições dizem que a solução deve ser única. Quer um exemplo? Veja o estudo a seguir.

É muito bonito e instrutivo, não é? Quase perfeito, se não fosse a dupla solução com 1.Bg4! também possível. Anos depois, o grande Pal Benko publicou uma “correção” tendo o Réti como uma espécie de coautor. Se a torre de a3 estivesse em g3 no início, o problema da solução dupla desapareceria, mas a posição não seria tão bonita. A versão final ficou assim:




O legado de Réti

Garry Kasparov comentou sobre Réti em sua obra, Meus Grandes Predecessores:

“Embora Nimzowitsch e Tartakower sejam os pioneiros do hipermodernismo no xadrez, Réti deixou todos para trás no início dos anos 1920 com suas espetaculares vitórias em alto nível, usando um método absolutamente incomum.”

Ele também deixou dois livros com suas visões a respeito do xadrez: Modern Ideas in Chess (1923) e Masters of the Chess Board (1923). ALém disso, como mencionado antes, ele popularizou seu próprio sistema de aberturas, caracterizado pelos lances: 1.Nf3 d5 2.c4, até hoje um dos preferidos em todos os níveis do xadrez.

Réti começou a compor estudos de finais apenas nos anos 1920. Nessa época, ele morou em Viena e Praga. Ele ainda jogou na primeira Olímpiada de Xadrez, em Londres, 1927, defendendo o primeiro tabuleiro da Tchecoslováquia. Ele foi quem mais pontuou entre os defensores do tabuleiro número um. Infelizmente faleceu ainda jovem, em Praga, 1929, mas vive através de suas obras e de seu legado.

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