Há 30 anos, o computador Deep Blue vencia Kasparov pela primeira vez

A data de 10 de fevereiro de 1996 ficou para a história do xadrez quando Deep Blue, desenvolvido pela IBM, tornou-se o primeiro computador a vencer um atual campeão mundial de xadrez jogando em ritmo de torneio.

Fonte: Britannica

A primeira vitória em uma partida aconteceu no primeiro confronto entre Kasparov e Deep Blue. Apesar de ter perdido uma partida, Kasparov venceu por 4 a 2 no fim das contas. Esse foi o primeiro grande confronto do tipo “homem vs. máquina”. Um ano depois, em 1997, aconteceria a grande revanche que Kasparov perderia de maneira polêmica.

O projeto Deep Blue

O Deep Blue começou na Universidade Carnegie Mellon sob responsabilidade de Feng-Hsiung Hsu e Murray Campbell, e migrou para a IBM em 1989. O grande trunfo técnico foi o uso de processamento paralelo massivo para elevar a velocidade de cálculo a patamares nunca vistos.

Em 1996, o software alcançava uma profundidade de 14 lances, e a equipe julgou que o projeto estava maduro o suficiente para desafiar (e vencer) os melhores do mundo. O oponente de Kasparov era um verdadeiro colosso físico e tecnológico: pesava 700 kg, tinha 2 metros de altura e podia processar 200 milhões de posições por segundo.

A logística do match era digna de ficção científica para a época. Enquanto Kasparov jogava em um tabuleiro físico na Filadélfia, seus lances eram enviados via linha telefônica para o Deep Blue, em Nova York. Um operador humano recebia a resposta da máquina e executava o lance contra o campeão.

A preparação e o choque inicial

Para não cair em armadilhas preparadas pelos engenheiros da IBM, Kasparov treinou com o software Fritz 4 e desenvolveu dez conceitos de abertura inéditos em seu repertório. Na primeira partida, Kasparov escolheu sua icônica defesa siciliana. Ele queria testar a máquina em terreno conhecido, mas foi surpreendido.

No lance 23, o movimento d5! do Deep Blue deixou Kasparov perplexo. Para ele, aquela jogada tinha uma profundidade estratégica tipicamente humana. Deep Blue venceu a primeira partida, tirando o sono do campeão e forçando uma mudança imediata de postura.

Confira toda a partida analisada a seguir:

Entendendo que não poderia vencer o “monstro” no cálculo puro, Kasparov mudou o foco, desenvolvendo uma espécie de estratégia “anti-computador”. Kasparov passou a fazer planos de longo prazo: priorizou estratégias que exigiam compreensão posicional, onde o cálculo imediato do computador era menos eficaz. Ele também buscou desviar da teoria de aberturas, usando transposições sutis para forçar o Deep Blue a “pensar” por conta própria o mais cedo possível.

Após 6 horas de uma batalha estratégica na abertura catalã, Kasparov venceu a segunda partida. Com os nervos no lugar, ele dominou o restante do confronto, fechando o placar em 4 a 2 (com 3 vitórias, 2 empates e apenas aquela derrota inicial).

O fim de uma era — e o início de outra

O período entre 1996 e 2006 marcou o auge do duelo “Homem vs. Máquina”. Naquela época, os computadores eram taticamente impecáveis dentro de seu horizonte de cálculo, mas cegos para planos de longo prazo, uma brecha que Kasparov explorava com truques de abertura e sutilezas posicionais.

No ano seguinte, em Nova York, o Deep Blue retornou muito mais potente. O confronto foi dramático. No segundo jogo, Kasparov abandonou uma posição que, mais tarde, provou-se ser um empate técnico. No sexto e decisivo jogo, Kasparov arriscou uma linha duvidosa na defesa Caro-Kann. O Deep Blue não hesitou: sacrificou material, refutou a estratégia do campeão e venceu o match.

Kasparov declarou diversas vezes que jogava para “defender a honra da raça humana”. No entanto, a derrota não foi bem recebida por todos. O lendário Viktor Korchnoi disparou com sua costumeira acidez: “Ninguém pediu para Kasparov jogar pela honra da humanidade e, acima de tudo, ninguém pediu para ele perdê-la.”

Hoje, o cenário mudou drasticamente. Se em 1996 milhões de pessoas acompanhavam o início da internet para ver se um humano poderia vencer uma máquina, hoje até os melhores do mundo admitem que não possuem chances contra os motores modernos. O monstro de 700 kg deu lugar a softwares minúsculos que rodam em celulares e superam qualquer mestre.

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