A esquecida arte da manobra: Estratégia de Xadrez Vencedora

Já reparou como certos jogadores parecem vencer diversas partidas sem esforço? Eles não precisam fazer nenhum lance agressivo nem conduzir ataques devastadores; mas quando o adversário dá conta, a posição já está praticamente perdida. Um desses jogadores era Anatoly Karpov, campeão mundial de 1975 a 1985, que venceu 160 torneios fortíssimos. Mas qual era a arma secreta dele?

Talvez você já tenha passado por isto ao estudar xadrez. Ao analisar partidas de jogadores como Kasparov, por exemplo, tudo é rápido e direto: um ataque legal seguido de mate. Mas outras partidas, como as de Karpov, é diferente. Os jogos são posicionais, sem muitos comentários... Mas, do nada, ele parecia obter vantagem e vencia. Como era possível?

A verdade é que Karpov, em seus melhores anos, era excepcional na arte de manobrar peças. Ele sabia exatamente onde posicionar as peças, e conseguia coordenar seu exército de modo que trabalhassem juntos, como uma verdadeira orquestra.

Ao longo da sua carreira como jogador, é natural levar um tempo para entender que nem toda posição tem algo para fazer. Ou seja, nem toda posição oferece um plano ativo para seguir, ou se defender contra algum ataque. Pelo contrário, a partida atinge um estado de “equilíbrio”. Nessas horas, quando não há plano ativo para nenhum lado, é necessário manobrar, isto é, reagrupar forças para tentar ganhar vantagem.

Vejamos quatro exemplos retirados de partidas de Karpov, que era excelente na arte das manobras. Em cada exemplo, uma peça diferente será a protagonista. Vamos começar pelo bispo.

Manobrando bispos

Karpov – Bukic, Bugojno 1978
Jogam as brancas

A casa d5 é crucial nesse meio-jogo da Siciliana. As brancas ficarão melhores se controlarem essa casa. Por outro lado, se as pretas conseguirem o avanço ...d6-d5, terão a iniciativa. Karpov precisa fazer com que seu bispo de casas escuras ajude na luta pela casa d5 — algo que parece difícil, já que d5 é uma casa clara!

Talvez venha à mente 18.Bxf6, mas isso faz com que as casas escuras no campo das brancas sejam enfraquecidas. Karpov achou uma solução melhor. Ele jogou o modesto 18.Bg3!, recuando o bispo. Agora ...d5 não é possível, já que as pretas teriam dificuldade para defender o peão e5. Com esse lance, as brancas ganham tempo para dobrar torres na coluna D e obter vantagem. Eis o jogo completo:


Manobrando cavalos

Este segundo exemplo é mais complexo, e destaca um cavalo.

Fraguela Gil – Karpov, Montilla 1976
Jogam as pretas

Eis aqui uma posição quase simétrica de uma abertura inglesa. As pretas têm sob controle as rupturas d3-d4 e b2-b4, mas como podem buscar atividade? Claro que poderiam apenas desenvolver o bispo com 12...Bd7, mas e depois? Se tentarem ...Na7 seguido de ...b5, o cavalo em a7 ficaria um tanto deslocado, não é?

Em vez de fazer um lance no automático, Karpov buscou harmonia para suas peças. Tenha em mente que uma ruptura ideal seria ...d5!, então ele precisa do bispo em b7, pois, com ele na diagonal maior, d7 fica disponível para a dama. E apesar disso ainda não ser suficiente para executar a ruptura, ainda há uma peça inativa.

Ele mesmo, o cavalo de f5 não precisa mais ocupar esse posto avançado. Com o bispo em d2, a ruptura d4 está fora de cogitação. Portanto, Karpov jogou 12...Nfe7!, um lance muito inteligente, mas que seria ignorado se ele só buscasse atividade direta. As pretas seguiram com …b6, …Bb7, …Qd7, …Ne5, …d5 e conseguiram uma boa vantagem. Observe a partida completa a seguir.


Agora é a vez da torre

Karpov – Kharitonov, Moscou 1988
Jogam as brancas

Essa é uma posição típica de ataque de minoria (você pode ver como surgiu na partida completa abaixo). Karpov jogou o estranho 29.Rcc1!. Mas por que recuar a torre?!

Este é o início de uma manobra que requer uma compreensão profunda da posição. Não é fácil para as brancas encontrar um plano ativo. Ainda é cedo para jogar a5-a6. Além disso, o peão a5 também é uma fraqueza. Ele precisa da defesa do cavalo de b2, cavalo esse que adoraria pular para c5.

Portanto, o peão-A precisa de outro defensor. Mas o imediato 29.Ra1 seguido de Nc5 falha devido ao avanço ...b7-b6, e a torre de a1 está indefesa. Fica claro que a torre de a1 também precisa ser protegida! E foi assim que Karpov chegou a 29.Rcc1. Em poucos lances, o cavalo finalmente conseguiu chegar a c5 e as brancas ganharam uma ótima iniciativa. Veja a partida completa:


A dama também precisa achar a melhor casa

Winants – Karpov, Brussels 1986
Jogam as brancas

As pretas adorariam pressionar o centro, principalmente o peão-d4 branco. Para isso, é preciso ter uma torre na coluna D. E para isso, a dama precisa sair, mas para onde? Muitos jogariam 13...Qb8, talvez seguido de ...Qb8-a8. O problema é que ela ficaria inativa por muito tempo.

Karpov encontrou uma casa melhor. Ele jogou 13…Qf4! 14.g3 Qh6. Em h6 a dama está segura, controla a promissora diagonal c1-h6 e não atrapalha nenhuma outra peça. A partida continuou com 15.Qf1 Rfd8 16.h3 Bb4!.

Agora fica evidente como a torre em d8 e o bispo em b4 foram beneficiados pela saída da dama da casa d6. As pretas possuem vantagem praticamente decisiva. Eis a partida inteira:


Conclusão

Talvez você não goste muito de Karpov por causa de suas polêmicas na carreira política e por ter sido “o garoto da União Soviética”. Mas em termos de xadrez, as partidas de Karpov até hoje devem ser o melhor e mais instrutivo material que alguém pode estudar. Nelas você encontrará o melhor em termos de manobras de peças.

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