No último artigo da série, falamos sobre manobras de peças, e nesse quesito o Anatoly Karpov era o melhor de sua época. Uma vez que essa habilidade é de suma importância, analisemos mais alguns exemplos. Desta vez, vejamos cinco jornadas de peças diferentes, uma de cada tipo.
Mas vamos combinar que, para cada diagrama, você vai tentar visualizar qual é a casa mais apropriada para determinada peça, e a futura rota que ela deverá seguir para chegar lá. Vamos lá?
O rei viajante
Vamos começar com uma posição que destaca o rei.
Tente avaliar a posição. As pretas têm um peão a mais, porém o peão-f3 vai cair em breve. Depois, as brancas terão um peão passado na coluna H, enquanto as pretas ficarão com peões dobrados. Por outro lado, as pretas possuem um par de almas gêmeas: torre e bispo se coordenam melhor que torre e cavalo. Tendo isso em mente, 29…Bxd3 30.Rxf3+ e 31.Rxd3 não é uma boa saída para as pretas. No final de torres, estariam pior.
Há vários modos de buscar a igualdade, mas Eljanow queria mais. Ele encontrou uma manobra excelente com seu rei rumo a um alvo lógico, embora distante: o peão a2. Ele jogou 29…Ke6 30.Ne1 Kd6 31.Kg3 Kc5 32.Nxf3 Kb4, e ficou claro que a ameaça na ala da dama é muito mais forte que o peão-H branco.
Você pode ver a partida inteira a seguir. Na luta que seguiu, Eljanov deixou escapar a vitória diversas vezes, mas teve a iniciativa até o final.
A dama embarca em uma jornada
No exemplo a seguir, a dama executa uma manobra surpreendente.
Ao que tudo indica, as brancas estão com a vitória na mão: possuem uma qualidade a mais e as peças negras estão bem passivas. Topalov percebeu que, para fortalecer ainda mais sua posição, seria ideal penetrar com a dama no campo adversário, mas sem abrir mão da magnífica casa f4 onde está a torre.
Então ele achou um caminho através de uma região inesperada: a ala da dama. Seguiu 59.Qc1! Kg7 60.Qa3 Bf7 61.Qd6. Pouco depois, mais uma vez em poucos lances, Topalov levou seu rei para a ala da dama e venceu um belo jogo, que pode ser conferido na íntegra a seguir.
Uma torre que fez milagres
Smeets-Carlsen, Wijk aan Zee 2006:
Carlsen tem um peão a mais, mas o peão-e4 está vulnerável. Além disso, é óbvio que o cavalo em d5 é muito forte. Então é provável que, se a partida seguisse um jogo posicional padrão, as pretas logo ficariam piores. Por isso, o Carlsen precisa agir rápido.
Mas o exército dele está dividido. A torre de b8 parece incapaz de contribuir com algo ativo na ala da dama. Apesar disso, o Carlsen achou uma ótima manobra. A torre de b8 vai começar a se movimentar e vai parar em f3! Primeiro, ele precisa abrir o caminho na ala do rei, e jogou 26...Qf7!, para forçar 27.c4. Depois, a torre inicia a viagem: 27...Rb3. Perceba que 28.Qxb3?? permite mate em 3 para as pretas. Smeets jogou 28.Re1, atacando o peão-e4.
Carlsen pode levar sua torre para a terra prometida, mas antes só precisa enfraquecer a casa f3: 28...Bh4 29.g3 Rf3!. As pretas estão pelo menos igualadas, mas o Carlsen ainda conseguiu vencer. Confira:
Um bispo ágil
A manobra a seguir é obrigatória para todos os que gostam da estrutura de peões Maroczy.
As brancas possuem o par de bispos, mas as pretas estão bem desenvolvidas e parecem não ter fraquezas, não é? Não exatamente. As pretas possuem uma fraqueza gritante: os peões na ala da dama. Nem o rei nem as peças menores podem protegê-los com facilidade. O defensor natural, a torre, deve ser trocada na coluna C.
Mas como atacar o peão-b7? Para Byrne, a resposta era clara: o bispo deve chegar a c8. Portanto, ele jogou 17.g3 Kf8 19.Bh3 Rc7 20.Rc1 Rxc1 21.Kxc1 Ke8 22.Bc8. O rei preto não chega a tempo, e as brancas ganharam um peão e, mais tarde, a partida, que pode ser conferida a seguir.
O cavalo andarilho
Às vezes, por causa do movimento em L, pode ser difícil para um cavalo mudar para uma casa próxima. Neste último exemplo, Mamedyarov encontrou um belo lugar para seu cavalo.
Com um peão excelente em d7 e todas as peças ativas, as brancas devem ter vantagem vencedora. Mas para dar o golpe final, uma última coordenação entre peças é necessária. Para onde o cavalo branco deve ir?
Mamedyarov decidiu levá-lo a e5. Nessa casa ele defende o peão-d7, ataca f7 e fica de olho na casa d8 (a casa de promoção). A grande questão é como levar o cavalo para lá. Ele jogou 31.Nd6 Bg6 32.Nc4 Qe2 33.Ne5 Kh7 34.g4 e as pretas estão dominadas. Adams abandonou três lances depois.
Conclusão
Nenhum jogador consegue atacar a todo momento. Para atacar, é necessário ter uma vantagem, seja em parte do tabuleiro ou nele inteiro. Mas em situações em que tudo está equilibrado, manobrar peças é a melhor forma de criar um desequilíbrio. De fato, a maioria dos ataques bem-sucedidos só são possíveis por causa de peças bem posicionadas.
Leia todos os artigos da série: Estratégia de Xadrez

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