O paradoxo da preguiça: Estratégia de Xadrez Vencedora

Evitar um pouco de trabalho duro em momentos críticos geralmente dificultará sua tarefa mais tarde. Em vez de se livrar do esforço, você vai ter que se esforçar mais depois. Esse é o paradoxo da preguiça.

Vencer no xadrez não é fácil: é algo que requer muita energia, principalmente na hora de calcular. É por isso que o cérebro tenta encontrar atalhos. Algumas vezes, tentar evitar o trabalho duro pode parecer mais prático, mas pode apenas ser reflexo de preguiça. Não encontramos a força de vontade para calcular e fazer o mais difícil, acabando por jogar um lance que apenas parece bom, em vez de procurar o melhor.

Vejamos 4 exemplos de como a preguiça pode fazer você se complicar no xadrez. Três desses exemplos vêm do grande mestre Levon Aronian. Isso não significa que ele é o mais preguiçoso entre os GMs. Pelo contrário, ele é até bastante honesto ao escrever sobre o que estava pensando durante as partidas.

Um exemplo de preguiça posicional no xadrez

Nesse primeiro exemplo, o Aronian sem dúvidas tem uma posição melhor, mas como ele deve continuar?

Aronian-Grischuk, FIDE Grand Prix 2008
Jogam as brancas

Se as brancas tomarem o cavalo preto em d5, tal troca corrigiria a estrutura de peões das pretas. Portanto, seria mais natural que o Aronian buscasse uma alternativa, como 30.Kg1, um lance que evitaria possíveis xeques ao longo da coluna H. Perceba que 30...Nxe3? se depara com 31.Qd2!.

Mas o Aronian foi um tanto preguiçoso. Ele não queria conferir todos os possíveis pulos do cavalo depois de cada lance , então jogou o anti posicional 30.Nxd5?!, e depois de 30...exd5, as pretas possuem muito mais chance de defender. Ok, o Aronian ainda venceu no fim, e você pode conferir a partida completa com comentários do próprio jogador a seguir.


Às vezes, a preguiça nos leva a complicar o desnecessário

Apesar de, em geral, a preguiça nos levar a procurar soluções simplistas, muitas vezes ela nos leva a buscar uma profilaxia sem necessidade.

So-Aronian, London Classic 2017
Jogam as pretas

Mais uma vez, o Aronian tem iniciativa. Tudo o que ele tem que fazer é não deixar as peças brancas conseguirem algum contrajogo. Num primeiro momento, as brancas parecem ameaçar Ng5 e Rf7, atacando o peão vulnerável em g7. O que fazer?

O Aronian escolheu um lance puramente profilático, e jogou 30...h6?. Isso permitiu que as brancas tivessem tempo suficiente para ativar a torre na coluna D. Depois de 31.Rf2! c4 32.Rd2, a atividade das brancas conquista o empate.

Melhor teria sido ignorar a ameaça jogando 30...Qc2!, uma vez que Rf2 seria impossível, e o peão-B fica pronto para avançar. Da mesma forma, o aparentemente perigoso 31.Ng5? teria como reposta 31…h6 32.Nxe6 Qxe4, quando as pretas ganham uma peça. Tudo que o Aronian precisava era investir um pouco de energia no cálculo exato, em vez de buscar um lance profilático. O jogo completo pode ser conferido a seguir:


Estar quase ganho não permite relaxar no cálculo

Muitas vezes , a preguiça nos vence quando achamos que o jogo já acabou. Observe:

Carlsen-Sokolov, Tata Steel 2013
Jogam as brancas

As brancas possuem uma posição vencedora . Apesar de ter um peão a menos, suas peças estão bem coordenadas, e o rei preto está enfraquecido. Da mesma forma, o fato de ter bispos de cores opostas no tabuleiro aumenta a iniciativa do Carlsen. A vitória parece então bem encaminhada.

Talvez por isso causem deva ter perdido a concentração e jogado um lance natural , porém impreciso: 46.Nd5?. Esse lance permite que a dama das pretas retorne após 46...Qc6, tornando tudo mais difícil. Uma sequência vencedora seria 46.Bf5+ Ke7 47.Qa7 Qc6 48.Qd4, ameaçando 49.Nd5+. Mas para encontrar essa variante, as brancas precisam calcular em vez de depender da intuição.

Apesar disso, Sokolov não aproveitou a chance, e jogou 46...Bd8?, perdendo logo em seguida. Você pode reproduzir a partida a seguir.


A fadiga contribui com a preguiça no xadrez

É comum que a preguiça ande lado a lado com a fadiga e o cansaço. Por exemplo, neste final, o Aronian não conseguiu extrair nada de uma posição melhor.

Aronian-Grischuk, Candidatos 2011
Jogam as brancas

O material está reduzido, mas as brancas possuem grandes chances de vencer. O peão passado é a principal arma, e não é tão fácil para as pretas trocar os peões na ala do rei. Se tivesse jogado 69.Ne5, Grischuk teria problemas após 69...Kd6 70.Nf7+ Ke7 71.Nxg5 Nxg5 72.c7 Kd7 73.Kb7 e promove.

Em vez de calcular tudo isso, o Aronian, já cansado, jogou 69.Nc5??, achando que um final com peão passado é sempre ganho. Mas toda regra tem uma exceção: Grischuk respondeu com 69…Nxc5 70.Kxc5 Kd8 e o jogo terminou empatado. Basta que as pretas avancem o peão para g4, tomem em h3 e esperem com o rei atrás do peão-C. Quando o rei branco for para o outro lado capturar os peões, as pretas tomam o peão-C e retornam a tempo à ala do rei.

Confira a partida completa com comentários do Aronian:


O que fazer ao sentir preguiça jogando xadrez

Bateu aquela preguiça? Siga estas instruções:

  1. Você está cansado? Se sim, tente tomar um café ou comer algo doce, e talvez tente refrescar a mente. Se o jogo for presencial e no ritmo clássico, você pode caminhar um pouco pelo ambiente.
  2. Se você tem energia, mas a preguiça é apenas mental, lembre-se do Paradoxo da Preguiça: este é um momento crítico, então se esforce agora para evitar ainda mais trabalho depois.
  3. Lembre-se: no xadrez, nada é melhor que um cálculo preciso. A intuição tem seu papel, mas ele é muito menor do que geralmente pensamos. Você precisa calcular, pois as táticas decidem a vasta maioria das partidas. Quem calcula mais e melhor geralmente vence.

Bons jogos!

Leia também: A armadilha da intuição no xadrez

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