Sistema London: abertura sólida e simples para começar no xadrez

Uma abertura de xadrez se destaca entre todas as outras quando comparamos seu potencial de recompensa com o esforço para aprendê-la: é relativamente fácil de aprender, mas sagaz o suficiente para que até oponentes renomados não tenham um antídoto adequado contra ela. Trata-se do Sistema London (ou Sistema Londres), popularizado no Torneio do Congresso BCF de Londres em 1922.


Visão geral do Sistema London

Um dos maiores benefícios dessa abertura é que ela, na verdade, passa de leve por muitas linhas teóricas. É surpreendentemente comum ver partidas em que jogadores fortes tentam desenvolver naturalmente contra o sistema e acabam sendo vítimas de um ataque esmagador, ou simplesmente se encontram em uma posição estrategicamente perdida. Esse último caso exemplifica outra das melhores qualidades do Sistema London – ele é excelente em restringir um contra-jogo inimigo.

Breve história

O primeiro jogo já registrado com o Sistema London (código ECO A46, A48 ou D02) é Mason vs. Blackburne (Londres 1883), dois jogadores da força de grandes-mestres. Ao se deparar com o sistema, Blackburne deve ter pensado que a abertura possuía mérito suficiente e se tornou seu grande expoente ao longo dos próximos anos.

O torneio que trouxe o Sistema London ao público foi o Congresso BCF de Londres, 1922. Este foi um torneio de elite ganho pelo Campeão Mundial da época, José Raúl Capablanca, com invictos 13/15 (com quatro empates). Na partida destacada no fim do artigo, veremos um confronto entre dois futuros campeões mundiais no mesmo torneio. (De fato, eles foram os próximos dois campeões mundiais!)

Classificação final do torneio, vencido por Capablanca

O que é o Sistema London?

O London envolve os lances: d4, Cf3, Bf4 e e3. Ao contrário do Sistema Colle, as brancas desenvolvem o bispo de casas escuras fora da cadeia de peões. Seus próximos lances irão mudar dependendo da resposta das pretas. Em geral, as brancas têm duas abordagens:

  • Se as pretas jogam ...c7-c5, as brancas respondem com c2-c3 e o posterior Cbd2.
  • Se as pretas não jogam ...c7-c5, as brancas avançam com c2-c4 e desenvolvem o cavalo com Cc3.

Em ambos os casos, as brancas desenvolverão seu bispo de casas claras para e2 ou d3, independente de moverem o peão-C antes ou depois. Em geral, se as negras puderem jogar ...e7-e5 no futuro, as brancas preferem colocar seu bispo em e2, a fim de evitar um potencial garfo se as pretas avançarem o peão para e4.

Para quem o Sistema London é adequado?

O sistema London é indicado para um vasto grupo de jogadores, cada um com seu perfil:

  • Iniciantes que buscam uma abertura fácil para começar a jogar sem ter que passar horas estudando teoria.
  • Jogadores que buscam fazer a transição de 1.e4 para 1.d4: muitos mestres recomendam o London pelo fato de ser mais ativo que outros sistemas (Torre ou Colle). Essa ideia é mais importante se você joga torneios presenciais e não quer arriscar seu rating enquanto pratica 1.d4 2.c4.
  • Jogadores que já possuem um repertório cujo primeiro lance é 1.d4 (peão-dama), principalmente se jogam a sequência tradicional c2-c4 e Cf3, podem usar o sistema London como forma de evitar a vasta preparação teórica dos oponentes. Seria uma espécie de arma surpresa.

Mas é preciso ter em mente alguns possíveis impasses. Primeiro, o sistema London ganhou muita notoriedade nos últimos anos, por ser fácil de aprender e ainda ser eficaz. Jogadores da elite ainda o utilizam no alto nível, mas o sistema não é imune à preparação. A teoria em torno do sistema foi amplamente estudada e as pretas possuem boas formas de igualar o jogo ou até tentar sair da fase de abertura levemente melhores ou com mais iniciativa.

Também é preciso destacar que jogar somente o London talvez prejudique seu xadrez no longo prazo. A principal razão é que as estruturas de peões que surgem são as mesmas em praticamente todos os jogos, então você ganhará pouca experiência em outras estruturas.

Como aprender o Sistema London?

No xadrez, os “sistemas” são aberturas baseadas em uma estrutura fixa que o jogador pode aplicar contra quase qualquer resposta do adversário. Portanto, sendo um sistema, o London é muito rápido de aprender. O jogador deve aprender a melhor forma de desenvolver contra diferentes configurações das pretas, tais como a estrutura Índia do Rei, ou o estilo simétrico com ...d5 e ...Bf5, ou abordagens que buscam trocar o nosso bispo com ...d5, ...e6 e ...Bd6.

O Sistema London ganhou novo vigor teórico em 2006 com o livro Ganhe com o Sistema London, escrito pelo GM croata Vlatko Kovacevic (uma das maiores autoridades na abertura) e Sverre Johnsen. A obra foi crucial por ser uma das primeiras a sugerir uma ordem de movimentos refinada: Bf4 primeiro e Cf3 atrasado. Essa sequência possui uma vantagem estratégica principal: permite às Brancas mover o peão-C mais cedo, facilitando a resposta a linhas com ...Db6 com o lance Db3.

O recente consenso parece ser que 1.d4 d5 2.Bf4 e 1.d4 Cf6 2.Cf3 são os lances mais precisos para alcançar o Sistema London. Na prática recente, os jogadores de mais alto nível que empregam o sistema são: Gata Kamsky, referência antes mesmo do seu ressurgimento moderno; Vassily Ivanchuk e Levon Aronian já chegaram a utilizar; e Magnus Carlsen e Hikaru Nakamura de vez em quando o empregam com bons resultados.

Partidas de exemplo

Alekhine – Euwe, Londres 1922


Kovacevic, Vlatko – Byrne, Robert (2530), Wijk aan Zee 1980


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