Um par de bispos pode ser uma arma poderosa em uma partida de xadrez, se você sabe usá-los! Nessa parte da nossa série de Estratégia Vencedora, você verá como converter uma vantagem devido a um par de bispos.
Se você joga xadrez há um tempo, especialmente se possui amigos ou conhecidos que jogam, você deve conhecer alguém que até sabe princípios estratégicos, mas não sabe usá-los a seu favor. Quando começamos no xadrez, é comum saber que controlar o centro e ter vantagem de espaço é algo bom, mas leva um tempo para entender como fazer isso de fato.
É assim que muitos jogadores até sabem que ter um par de bispos é algo bom, mas não sabem como aproveitá-los da melhor forma. Talvez eu tenha descrito você. Mas não se preocupe: isso não é algo exclusivo de amadores. Até mestres têm dificuldades com esse conceito estratégico.
O par de bispos contra um cavalo
Com as brancas, o então IM Milan Pacher, hoje um GM com extraordinária habilidade de ataque, jogou 16.f4?. Mas por que esse é um lance ruim?
Porque ter um par de bispos significa jogar contra um cavalo. A tarefa mais importante é deixar o cavalo sem boas casas centrais. Por essa razão, você deve posicionar seus peões com muito cuidado, para que sua posição não tenha casas debilitadas.
Mas Pacher pensou diferente nessa partida. Por ter o par de bispos, ele achou que devia procurar um lance “ativo”. Por isso avançou o peão F. Porém, isso se provou um erro. Quem tem o par de bispos não tem pressa. Em geral, quanto mais o jogo se prolonga, mais forte o par de bispos fica. Quanto mais trocas, e quanto mais o tabuleiro se esvazia, mais os bispos ficam fortes contra bispo e cavalo.
Um lance de torre ou 16.a4 já seriam suficientes. O jogo continuou:
16…c5! 17.c4?! (17.dxc5 é melhor, embora as pretas ganhem um tempo, pois o rei branco ficou enfraquecido após f2-f4.) 17…Cf6 18.Bc3 Tfd8 19.d5 Be7 20.Tfe1 Rf8
A atividade incorreta das brancas lhes trouxe uma posição desagradável: o centro está vulnerável. Mesmo assim, após 21.Bxf6 a posição está mais ou menos igualada. Mas Pacher ainda pensava que deveria manter o par de bispos e buscar atividade. Ele jogou 21.Tad1?!, sacrificando o peão-d5 por um contrajogo que nunca veio. As negras venceram. Veja o jogo completo:
Assim identificamos duas coisas para não se fazer: não se apressar e não alterar a estrutura de peões sem pensar bem. Agora veremos duas regras do que fazer.
Onde colocar os peões
Primeiro, geralmente você deve posicionar seus peões em casas da mesma cor do bispo adversário. Por exemplo, se o oponente tem um bispo de casas claras, você colocaria os peões em casas claras. Há dois motivos para isso: restringir o bispo adversário e, caso os bispos sejam trocados no futuro, você fica com um “bispo bom” contra o cavalo.
Só de saber essa regra você conseguirá encontrar o lance que Kramnik fez na seguinte posição:
O ex-campeão mundial tinha que decidir entre manter o bispo de casas escuras fechado ou abrir linhas para ele, mas fechando o bispo de casas claras. Ele seguiu a regra acima e rapidamente jogou 15.c4! Tfe8 16.d5! preferindo fechar o bispo de casas claras. Você pode conferir a partida na íntegra:
O par de bispos permite aplicar pressão
A segunda regra é um pouco mais complexa, mas vamos tentar raciocinar juntos. Quando o oponente enfrenta nosso par de bispos, há dois cenários que ele quer evitar: a posição não pode abrir e o bispo dele não quer ficar restrito pelos próprios peões, quando ficam em casas da mesma cor. Além disso, nessa última situação, as casas de cor opostas ficariam enfraquecidas.
Assim, você pode tentar ganhar espaço e aplicar pressão no oponente. Muitas vezes acontecerá uma das duas coisas, ambas excelentes para quem tem o par de bispos: (1) o oponente não vai se opor e vai ficar todo retraído; (2) ou ele tenta impedir seu plano e a posição acaba abrindo, ou o bispo dele fica ruim.
Com isso em mente, observe a posição a seguir, de uma partida do Bobby Fischer que ilustra a segunda regra muito bem.
Parece que o par de bispos das brancas não tem muito valor, mas Fischer tem um plano de ganhar espaço na ala da dama. As negras não conseguem encontrar uma boa resposta.
Perceba que o natural 12.f4?! força demais. Depois de 12...e5 13.f5 Bh6!, fica claro que as brancas violaram as regras mencionadas antes e complicaram o próprio objetivo.
Fischer jogou 12.a4, e depois de 12...Tad8 13.Cb3, as negras precisam escolher entre permitir a4-a5 e Be3, permitindo a pressão na ala da dama, ou se opor a esse plano. Ibrahimoglu bravamente escolheu se opor, mas o preço foi alto:
13…b6 14.Be3 c5 15.a5 e5 16.Cd2 Ce8 17.axb6 axb6
As pretas evitaram o sufoco, mas o bispo de casas escuras está muito passivo, sem mencionar as fraquezas das casas claras. As brancas estão muito melhores. Fischer jogou 18.Cb1! e venceu o jogo, que pode ser conferido a seguir.
Eis um resumo do que fazer com a vantagem de um par de bispos:
- Cuidado com avanços de peões: evite enfraquecer casas, principalmente centrais, pois um cavalo centralizado muitas vezes compensa o par de bispos.
- Tenha paciência. Com o tabuleiro vazio, seus bispos são muito mais fortes.
- Posicione seus peões em casas da mesma cor do bispo adversário para restringí-lo.
- Ter um par de bispos muitas vezes permite tentar ganhar espaço, forçando o oponente a ser muito preciso nos movimentos de peões.
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