A troca de peças menores é, de fato, uma arte e uma ciência. Saber como, quando e por quê trocar um cavalo por um bispo, ou vice-versa, é crucial para evoluir seu pensamento estratégico e melhorar no xadrez.
Em um artigo anterior, nós vimos como, quando e por quê trocar peças pesadas. Mas a coisa fica diferente quando o assunto é peças menores (bispos e cavalos). A primeira diferença é que a posição do rei não importa muito, pois peças menores não são fortes o suficiente para criar ameaças de mate imediatas.
Além disso, se você reparar bem, a troca de um bispo por um cavalo é a única troca de peças diferentes, mas que possuem valor praticamente igual. Dessa forma, é uma das formas mais simples de criar um desequilíbrio na posição.
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E por fim, peças menores geralmente vêm pro jogo primeiro na abertura. É comum ver trocas dessas peças logo cedo, diferente das peças pesadas, que só entram em jogo mais tarde.
Vamos ver alguns exemplos práticos, começando com um que desafia tudo o que aprendemos ao iniciar no xadrez. Veja o diagrama abaixo. Um jogador abaixo dos 2000 de rating pode achar que os peões pretos avançados na ala da dama fazem com que as brancas estejam em perigo. Mas será mesmo? Analise mais a fundo.
A verdade é que as brancas não estão nem perto de levar mate. Anand possui perfeito controle do centro e quase todas as suas peças (até a torre de h1) estão preparadas para ajudar na defesa. Por outro lado, o cavalo preto em h5 não consegue se juntar ao ataque.
Ok, as brancas não estão piores, mas será que estão melhores? Anand demonstrou a vantagem das brancas ao jogar lances contraintuitivos: 20.Bg4! Cf4 21.Bxf4 exf4 22.Bxd7! Dxd7 23.Dd2 (diagrama).
Ao entregar o par de bispos, Anand transformou a posição em um cenário típico de cavalo contra bispo ruim. O cavalo não parece imponente agora, mas em poucos lances chegará a d5 com força máxima. Anand venceu de forma convincente, pois as pretas não podem transferir seu bispo para a longa diagonal, pois ...g7-g6 se depara com h4-h5, seguido de um ataque de mate na coluna H.
A lição que fica é: não importa quais peças foram trocadas, e sim as que restaram no tabuleiro. Apesar do consenso de que dois bispos são melhores que dois cavalos, Anand fez essa troca, e o material e a posição resultantes estavam a seu favor. Veja a partida completa:
Outra lição que podemos aprender é: não julgue a qualidade de uma peça somente pela posição atual dela. Tente imaginar o potencial máximo que ela pode alcançar. Um jogador forte enxerga a fera escondida no cavalo de c1 antes que ele chegue a d5.
No exemplo a seguir, as pretas falharam em enxergar o potencial do cavalo inimigo.
As pretas jogaram um gambito Benko, mas não encontraram compensação pelo peão sacrificado e agora precisam lutar pelo empate. É preciso decidir: tomar o cavalo ou não?
Mikhalevski decidiu manter o bispo, que é a peça mais ativa das pretas. Ele jogou 38...Rf8?, permitindo que o cavalo escapasse de c3. Após uma longa viagem, o cavalo chegou a c4, onde exerce plenamente seu potencial e torna-se muito melhor que o bispo preto. Ionov venceu sem maiores complicações.
Em vez disso, as pretas deveriam tomar o cavalo com 38...Bxc3!, e depois de 39.Txc3 Tba8 40.Tcc2, as brancas possuem uma tarefa difícil: avançar o peão a2. Isso aumenta muito as chances de empate das pretas. Inclusive, elas devem manter as quatro torres no tabuleiro, pois trocar um par de torres faz com que o rei branco alcance o peão-a2 e o ajude a avançar. Confira a partida na íntegra.
Outra regra simples, mas que pode ser difícil de enxergar, é esta: se você tem mais espaço que o oponente, mantenha o máximo de peças possível no tabuleiro. Parece trivial, mas vale destacar que isso não vale somente para posições fechadas. Veja o seguinte exemplo.
Em uma posição aberta como essa, nem sempre o tempo é o fator mais importante. Talvez você pense que é melhor jogar algo como 14.Tfd1, sem se importar com a troca de cavalos em d4. Porém, depois de 14...Cxd4 15.Txd4 Bc6, o bispo preto de casas claras fica muito bem colocado e as pretas igualam. Quanto mais vazio o tabuleiro, maior o poder do par de bispos. Essa troca ajuda as pretas.
Surpreendentemente, o espaço, e não o tempo, é o fator primordial. Aronian jogou 14.Cb3!, e o cavalo em c6 permanece imobilizando o bispo preto em d7. As brancas venceram mais tarde, confira a partida.
Por fim, o que você jogaria com as brancas nessa posição?
As brancas podem ficar satisfeitas com a abertura. O plano é simples: avançar a maioria de peões na ala da dama. Será que as negras possuem contrajogo? Até podem colocar o cavalo em e4. Então as brancas podem responder ...Ch5-f6 com Ce2-c3, defendendo essa casa. Mas lembre-se: uma peça que ataca geralmente é muito mais forte do que uma que defende.
As brancas jogaram 21.Cg3!. Depois de 21...Cxg3 22.hxg3, a fraqueza em e4 é irrelevante, pois nenhuma peça preta pode ocupar essa casa. Além disso, a coluna H está aberta e as brancas podem usá-la para atacar o rei inimigo.
O único incômodo é que as brancas ficaram com um bispo “ruim”, e as pretas, com um bispo “bom”. Mas nesse tipo de posição, não está muito claro se isso é mesmo um fator preponderante, pois o bispo preto também fica restrito pelos peões brancos.
Assim aprendemos que, se há casas fracas em sua posição, convém trocar os cavalos do inimigo. Além disso, em posições muito fechadas, a diferença entre bispos bons e ruins ficam cada vez menos evidentes. A partida completa pode ser vista a seguir.
Trocas de peças são armas muito fortes. Ao jogar para vencer, não tenha medo de simplificar a posição, desde que haja potencial nela. Magnus Carlsen é um exemplo de jogador que frequentemente transforma a abertura em um final de jogo levemente superior, com uma vantagem quase inexistente, mas pouco a pouco ele tortura o oponente e sai com a vitória.

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