O par de bispos pode ser uma ferramenta poderosa, mas não garante nada por si só. Neste artigo veremos que os princípios de xadrez não foram feitos para ser seguidos de forma cega e teimosa.
No artigo anterior da nossa série Estratégia de Xadrez Vencedora, pudemos ver que o par de bispos pode ser excelente, além de examinar exemplos do que fazer com o par de bispos em uma partida de xadrez. Porém, é comum que, ao ter esse princípio em mente, um jogador tome decisões ruins, e o preço que paga por ele é alto demais.
Mas por que isso acontece? Porque seres humanos buscam certeza e previsibilidade. Ao comparar dois recursos estratégicos, temos a tendência de superestimar o que é bem definido e subestimar o que parece vago e nebuloso. A vantagem do par de bispos é muito direta e fácil de entender e, portanto, superestimada em relação a “iniciativa” ou “coordenação de peças”.
Vejamos três exemplos em que os jogadores ficaram hipnotizados pela (suposta) vantagem do par de bispos, buscando mantê-la a todo custo.
Uma posição típica da Nimzoíndia
A primeira posição vem da partida Morovic Fernandes – Adams, nas Olimpíadas de Xadrez de Istambul, 2000. Jogam as brancas:
Esta posição está igualada. As brancas têm o par de bispos, mas as peças menores das pretas estão muito bem posicionadas e já iniciaram as atividades na ala da dama. O mais seguro para as brancas é trocar imediatamente o forte bispo preto com 14.Ce1, alcançando uma igualdade total (e bastante monótona, é verdade).
Mas Morovic Fernandes não estava disposto a desistir de seu par de bispos. Em vez disso, ele iniciou uma longa manobra com o objetivo de remover o bispo preto de sua posição perfeita. No entanto, enquanto isso, Adams não ficou parado e conseguiu uma boa iniciativa na ala da dama:
14.Bh3?! b5 15.Cd2 axb3 16.axb3 bxc4 17.bxc4 Ta2!
Perceba que Adams não superestima seus bispos. Mesmo sem eles, é possível ganhar uma partida, desde que todas as peças restantes estejam ativas!
Nessa posição, as brancas tiveram a última chance de puxar o freio de emergência. O sóbrio 18.Cxe4 Cxe4 19. Bg2! ainda leva a uma posição dinamicamente equilibrada, já que após 18…Cxc3 19.Dxc3 Txe2 a torre preta não estaria segura no meio do território das brancas.
No entanto, Morovic Fernandes ainda esperava obter uma vantagem segura com o “par de bispos”. Ele jogou 18.f3??, esperando continuar com e2-e4, construindo um bom centro. Mas Adams não permitiu. Ele respondeu 18…Bc2! 19.Tde1 c5!, destruiu o centro das brancas e facilmente converteu sua enorme iniciativa em uma vitória.
Observe que foram as brancas que decidiram, algumas jogadas antes, investir tempo e energia para proteger o bispo em h3, que agora está inútil, em vez de trocá-lo pelo monstro das pretas em c2!
Você pode reproduzir a partida a seguir:
Nem sempre a compensação vem...
O segundo exemplo mostra como um GM experiente não teve medo de quebrar sua própria estrutura de peões por pensar que o par de bispos seria uma compensação suficiente.
Com seu último lance 12…Bg4, Roiz criou a ameaça de Bxf3, destruindo o abrigo do rei branco. No entanto, Ftacnik não ficou com medo. Em vez de se defender cuidadosamente da ameaça com, por exemplo, 13.Be2, ele decidiu pela jogada ativa 13.Bf5??, supondo que estava em uma situação vantajosa. Ou as pretas trocam os bispos, e então as brancas ficam mais perto de um final com um plano claro contra o peão isolado em d5, ou elas tomam em f3 e então as brancas desfrutarão do par de bispos.
No entanto, o raciocínio das brancas foi unidimensional. Na verdade, o cavalo em f3 é uma peça importante que protege casas centrais cruciais. Além disso, após a troca em f3, o rei branco ficará extremamente fraco, e seu exército preso no centro não poderá ajudá-lo. Além disso, também dê uma olhada nos cavalos pretos. Eles são muito estáveis e controlam bem o centro. Por que eles seriam mais fracos que os bispos das brancas?
Roiz, é claro, jogou 13…Bxf3! e, após alguns lances, ficou claro que o par de bispos das brancas era inútil, enquanto o resto da posição virou um desastre total:
14.gxf3 0-0 15.Td1 De7 16.Ca4 Ba7 17.Bh3 Tad8 18.Cb2 d4
As pretas iniciam o ataque final contra as brancas na ala do rei enfraquecida. Observe como os bispos brancos estão ociosos e como a cavalaria preta controla bem o centro. A partida pode ser conferida na íntegra a seguir.
Um teste prático: o que fazer com as pretas?
A posição a seguir é muito instrutiva. O que você faria?
Pela intuição, muitos decidem jogar 15…Cf6??, supondo que as brancas devem proteger seu par de bispos e jogar 16.Bd3. Então, as pretas ganham outro tempo com 16…c4 e podem ficar razoavelmente otimistas em relação ao futuro.
Mas espere um pouco! Vamos nos libertar dessa obsessão pelo par de bispos! Há também outros aspectos importantes na posição. As pretas estão subdesenvolvidas e seu rei não pode fazer o roque. Portanto, jogar 15…Cf6??, um lance que não ajuda no desenvolvimento, é brincar com fogo.
Portanto, as brancas devem responder ativamente. Após 16.dxc5!, as pretas estão em grave perigo. O único lance que não perde material imediatamente é 16…bxc5, mas após 17.Txd6 Dxd6 18.Bf4 Db7 19.Td1!! (A ameaça é mais forte do que sua execução! As brancas não precisam se apressar em recuperar a troca), as brancas estão praticamente ganhas.
De volta à posição inicial. Em vez de perseguir o par de bispos, as pretas deveriam se concentrar no desenvolvimento ou em fechar o centro. Isso nos dá três lances candidatos sensatos: 15…Bb7, 15…Ba6 e 15…c4. Speelman escolheu o último, igualou em poucos lances, e depois venceu uma partida excelente.
Então será que a vantagem do par de bispos não existe? De forma alguma. Em geral, ter o par de bispos é algo valioso, mas o jogo de xadrez possui sutilezas e exceções. O que define um bom jogador é sua capacidade de entendê-las, e não apenas decorar regras gerais. É preciso saber quando seguir as regras e quando quebrá-las. Ser cabeça-dura raramente levará ao sucesso.
Tenha isso em mente, e bons estudos!
Leia também: Como trocar peças menores

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