Medo, o inimigo fatal do enxadrista: Estratégia de Xadrez Vencedora

O ser humano tende naturalmente a buscar segurança. Todos temos nossos medos e temores, afinal, muitas vezes precisamos evitar perigos desnecessários a fim de preservar a vida. Mas no xadrez, quase sempre essa é uma má escolha.

A sua vida não está em jogo numa partida de xadrez. Em geral, o máximo que você pode deixar de ganhar é um ponto de torneio, e às vezes perder alguns pontos de rating. Portanto, jogar com medo apenas acaba com sua objetividade e faz você jogar mal. Vejamos quatro exemplos em que o medo certamente influenciou partidas.

O medo dá mais chances ao oponente

Neste primeiro exemplo, Jan Kryzstof Duda tinha a difícil missão de enfrentar, com as peças pretas, Magnus Carlsen nas semifinais da Copa do Mundo de Xadrez. Na posição a seguir, as pretas estão bem melhores, possuem peças mais ativas e controlam a única coluna aberta.

Carlsen-Duda, Copa do Mundo da FIDE 2021
Jogam as pretas

Contra um adversário qualquer, Duda trocaria as damas sem hesitar e atacaria o peão de a3, jogando 38…Qxf1 39.Kxf1 Rc3. Mas contra o gênio norueguês, ele teve medo de deixar a torre branca penetrar: 40.Rc1 Rxa3 41.Rc8+ Kh7.

No entanto, a posição resultante é uma clara vitória para as pretas, já que seu peão a4 é muito rápido. Duda viu coisas onde não havia: um resultado típico de estar com medo. Ele jogou o “seguro” 38…Rc4?! e ficou apenas ligeiramente melhor. Ok, no fim ele venceu assim mesmo, já que Carlsen estava visivelmente fora de forma naquele dia.

Quando jogamos com medo, tentamos não dar margem a nenhuma reação do adversário. Porém, na maioria das vezes, ter cautela demais paradoxalmente dá ao adversário mais oportunidades que o normal.

Você pode ver as análises de toda a partida a seguir.


O medo faz defender passivamente

No segundo exemplo, Nisipeanu estava em maus lençóis contra outra lenda do xadrez, Vassily Ivanchuk.

Nisipeanu-Ivanchuk, Bazna Kings 2009
Jogam as brancas

As brancas têm um peão a menos e a estrutura de peões enfraquecida. Se pretas ativarem as peças menores, as brancas não vão suportar. As brancas precisam atacar rápido pelas casas claras ao redor do rei preto.

Depois de 32.f4! d3 33.Kg2 (necessário contra …Rb1) 33…Rb1 34.Qf3 Qxd2 35.Bxd3 Rb8 36.Qe4 Kg8 37.Bc4+ Kh8 38.Bd3, as brancas teriam uma peça a menos, mas a ameaça de mate é suficiente para garantir empate por repetição. Mas Nisipeanu não estava preparado para se lançar ao ataque. Ele jogou o tímido 32.Kg2? e acabou perdendo poucos lances depois.

Quando estamos com medo, nos esquecemos de defender contra as ameaças de forma ativa. Simplesmente tentamos sobreviver de alguma forma.

Observe a partida completa a seguir.


Passividade não traz segurança

Na partida a seguir, pretas provavelmente não temiam o adversário, mas o jogo vinha tenso e pretas não tiveram energia para manter a iniciativa.

Anton Guijarro-Bortnyk, Campeonato Europeu, Minsk 2017
Jogam as pretas

É óbvio que as pretas podem capturar o peão de e5. Na verdade, não é óbvio por que não deveriam fazer isso. De fato, após 18…Nxe5 19.h4 Qxe7 20.Rae1 Nbc6, as pretas estão melhores. O cavalo de e5 está cravado, mas bem protegido.

Mas para Bortnyk, capturar em e5 pareceu assustador demais. Ele decidiu jogar um lance “seguro” que acabou se revelando traiçoeiro. A partida continuou com 18…Qe7?? 19. Bh7+ Kh8 20.e6!. O peão de e5 sobreviveu e castigou as pretas dois lances depois. Após 20.e6!, as pretas já podem abandonar.

Jogando com medo, é comum optar por jogadas “seguras”, evitando linhas críticas. No entanto, passividade não é segurança. Jogar com atividade costuma ser o caminho mais seguro.

Veja a análise completa, pois é muito interessante.


Quando os dois jogam com medo

No último exemplo, ambos os jogadores tiveram receio de seguir as linhas decisivas.

Taylor-Edouard, Gibraltar 2019
Jogam as pretas

As pretas têm um peão a menos, mas podem tomar em d3. O GM Edouard viu 22…Rxd3 23.Rxd3 Qxd3 24.Rd2 Qxc3 25.Qe6 Bf6 26.Rd7, porém temeu essa linha. Mesmo assim, ela oferecia contrajogo. Após 26…b4, a posição fica incerta. Em vez disso, jogou 22…h5?!, ameaçando …g5-g4, que não é lá muito perigoso.

Mas deu certo! Taylor, com 300 pontos de rating a menos que Edouard, ficou assustado e jogou 23.Nh2?, permitindo 23…Rxd3. A posição fica quase igual, mas agora o cavalo em h2 não controla mais d2, então a linha anterior não funciona. Com 23.d4 as brancas ganhavam.

Veja a análise completa feita pelo próprio Edouard:


Conclusão

Quem joga xadrez com medo foge do confronto, faz lances passivos e atrasa contra-ataques. Em resumo, vira presa fácil.

Então, como combater o medo? Reprograme sua mente:

  1. Contra um adversário mais forte, pense: “Tenho menos a perder. Ninguém espera vitória minha. Ele pode subestimar. É chance de surpreender”. Ver o jogo como oportunidade reduz o medo.
  2. Se você for o mais forte, pense: “Atacar até pode piorar a posição. Mas passividade com certeza piora. Então, primeiro ataque”. Hesitar garante o erro.

Em poucas palavras: enfrentar o medo te deixa mais forte e mais perigoso para qualquer oponente.

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