Relembrando o campeão mundial de xadrez Max Euwe

Poucos nomes no xadrez carregam o peso e o respeito de Machgielis “Max” Euwe. Imagine um professor de matemática, um verdadeiro amador do jogo, derrubando o todo-poderoso Alexander Alekhine para se tornar campeão mundial em 1935. Foi exatamente isso que Euwe fez, quebrando paradigmas e iniciando uma era de consistência que o manteve no topo do xadrez mundial do final dos anos 1920 até a década de 1950.

Mas o tabuleiro foi apenas uma de suas arenas: ele também foi um dos maiores escritores de xadrez de todos os tempos e o homem que comandou a FIDE em seus anos de consolidação. Para celebrar o 125º aniversário de seu nascimento, nada melhor do que mergulhar na fascinante história do quinto campeão mundial.

Max Euwe (20 de maio de 1901 — 26 de novembro de 1981)

O xadrez não foi apenas um hobby para Max Euwe; foi o berço de sua infância. Nascido em Amsterdã em 1901, em uma família modesta, mas apaixonada pelo jogo, o pequeno Max começou a enfrentar adultos aos 4 anos. A precocidade era assustadora: aos 10 anos já levantava seu primeiro troféu e, aos 12, já integrava a tradicional Amsterdam Chess Society. Sua primeira grande inspiração veio de fora das 64 casas, ao assistir a uma simultânea de Frank Marshall, mas logo ele estaria do outro lado. Em 1914, aos 13 anos, Euwe conquistou sua primeira vitória contra um mestre, motivado pelas notícias do lendário torneio de São Petersburgo que ecoavam pela Europa.

Se a Primeira Guerra Mundial congelou o xadrez no resto do mundo, ela aqueceu o tabuleiro na Holanda. A neutralidade do país atraiu uma verdadeira constelação de mestres exilados, incluindo Emanuel Lasker, Richard Reti e Savielly Tartakower. Crescer e competir nesse ambiente de excelência foi o maior privilégio de Euwe, que teve a sorte de ser mentorado pelo grande Geza Maroczy. Sob a tutela de Maroczy, Euwe conquistou seu primeiro título nacional em 1921 e empatou um match contra o próprio mestre.

Mas aqui reside um dos maiores contrastes da história do esporte: enquanto subia no ranking mundial, Euwe construía uma carreira acadêmica de peso. Ele se formou em matemática, tornou-se professor e, em 1926, conquistou seu doutorado — tudo isso no mesmo ano em que se casou e venceu seu segundo campeonato holandês. Em vez de abandonar o xadrez pela vida acadêmica, seus apoiadores holandeses criaram o “Comitê Euwe”, uma equipe dedicada a preparar o “professor” para o maior desafio de todos: o campeonato mundial.

Fonte: europeana.eu

O Comitê não perdeu tempo e começou a agendar combates de fogo. Em 1926, o adversário foi Alexander Alekhine. O mundo esperava um massacre, mas Euwe transformou o match em uma guerra. Alekhine suou frio e só garantiu a vitória no último lance, fechando o placar em 5.5 a 4.5. Dois anos depois, foram dois confrontos contra Efim Bogoljubov, ambos perdidos pelo mesmo e apertado 4.5 a 5.5. Cada derrota era uma aula. O clímax dessa preparação veio em Hastings (1930-31), quando Euwe venceu o torneio deixando Capablanca para trás. O match de revanche contra o cubano terminou com vitória de Capa por 6 a 4, mas a realidade era inegável: Euwe perdeu apenas porque deixou escapar duas vitórias cruciais. O xadrez mundial havia percebido que o amador holandês não era apenas um visitante ilustre; ele era o próximo na fila pelo trono.

A jornada até o campeonato mundial de 1935

O fortíssimo torneio de Hastings 1930-1931

Após a vitória, em 1934, Euwe e seu comitê lançaram o desafio e fecharam a disputa do título com Alekhine. A FIDE queria Flohr como desafiante, pois ele era a nova estrela na época. Mas Alekhine tinha o direito ao título e escolheu enfrentar Euwe. Dois anos antes, eles já tinham jogado um match de 16 partidas que terminou empatado.

Max Euwe pronto para enfrentar Jose Raul Capablanca em 1934

O torneio de Zurique, 1934

Meses depois, Alekhine e Euwe jogaram o Torneio de Zurique 1934. E o resultado só aumentou a expectativa pro match. Alekhine ficou em 1º, Euwe em 2º. Mas no confronto direto, Euwe venceu Alekhine.

A preparação de Euwe pro Mundial de 1935 foi a mais intensa da vida dele. Alekhine era o favorito absoluto, e Euwe sabia: pra aproveitar a chance mínima que tinha, precisava estar 100% teórica e fisicamente. Estudando as partidas do campeão, Euwe percebeu um padrão: Alekhine forçava demais em posições igualadas na abertura. Assim, Euwe montou um repertório sólido, mas reconheceu que foi uma tarefa árdua.

O match do Campeonato Mundial de 1935

Alekhine abriu 4-1 logo no início do match de 30 partidas. E ainda liderava por 2 pontos depois de 19 jogos. Mas Euwe manteve a calma. Nos 11 jogos finais, ele venceu 4 e virou o placar: 15.5 a 14.5. Com isso, Euwe se tornou o 5º campeão mundial de xadrez.

A derrota de Alekhine gerou um burburinho: que ele havia subestimado Euwe, que tinha problemas com bebida… Mas quem entendeu de verdade o feito de Euwe foi o 7º campeão mundial, Vassily Smyslov. Ele disse: “Nada acontece por acaso. Não importa a fase de Alekhine: pra ganhar dele, só um mestre de altíssimo nível conseguiria. Euwe jogou melhor e virou campeão com mérito”.

Max Euwe, com as peças pretas, contra Alexander Alekhine

Alekhine exerceu o direito a uma revanche em caso de derrota nas cláusulas do contrato de 1935. Enquanto campeões anteriores evitavam oponentes perigosos, Euwe, com a nobreza que o caracterizava, aceitou o desafio prontamente.

Desta vez, porém, a história seria diferente. Alekhine entrou no campeonato mundial de 1937 faminto pelo título que perdera e rápido em corrigir suas falhas. O russo dominou o match, vencendo por 15.5 a 9.5 e recuperando sua coroa.

Mas a carreira de Euwe estava longe do fim. Ele permaneceu na elite mundial mesmo após seu reinado de dois anos. Terminou em terceiro lugar (dividido) no grandioso torneio AVRO de 1938 e, em 1940, travou um match de 14 jogos contra Paul Keres, perdendo por um triz: 7.5 a 6.5.

Em Groningen 1946, Euwe disputou o que considerou o torneio de sua vida, ficando em segundo lugar, atrás apenas de Mikhail Botvinnik.

Ele também participou do torneio de Haia em 1948, onde Botvinnik conquistou a coroa deixada vaga pela morte de Alekhine. Seu adeus oficial aos palcos mundiais ocorreu no torneio de Candidatos de Zurique em 1953, onde teve uma atuação creditável na primeira metade, mas acabou cedendo espaço às estrelas da nova geração na reta final.

Pendurando as chuteiras

Quando Euwe finalmente encerrou sua carreira competitiva, os números falavam por si: 102 torneios vencidos, 12 títulos nacionais holandeses (o recorde em seu país) e sete participações defendendo o tabuleiro principal nas Olimpíadas de Xadrez pela Holanda. Fora do tabuleiro, sua caneta foi tão afiada quanto suas peças, com mais de 70 livros escritos, incluindo clássicos como The Road to Chess Mastery e Judgment and Planning in Chess.

Mas a contribuição de Euwe ao xadrez não parou nas 64 casas. Em 1964, ele se tornou professor, um momento que ele mesmo classificou como mais feliz do que quando conquistou o título mundial em 1935. E, como se não bastasse, em 1970, assumiu a presidência da FIDE, cargo que ocupou por oito anos.

Como presidente, Euwe foi conhecido por sua integridade inabalável. Ele nunca se curvou a nações poderosas, como a União Soviética, mantendo sempre seus princípios. Um dos marcos de sua gestão foi a realização do lendário match de 1972 entre Bobby Fischer e Boris Spassky. Sem a habilidade diplomática de Euwe em lidar com as controvérsias que permearam o evento, é muito provável que o Match do Século tivesse sido abortado.

Com todas as suas conquistas como amador — que fariam até o mais resiliente dos profissionais se orgulhar — e seu serviço inestimável como o mais alto administrador do xadrez mundial, Euwe foi, de fato, um homem notável. Seu lugar distinto e estimado na história do xadrez não é apenas merecido; é eterno.

Algumas partidas notáveis de Max Euwe

  1. Euwe vs. Reti, 1920: Primeiro match de Euwe contra um top: 4 partidas contra Richard Reti. Na 3ª, o jovem Euwe dá um show de jogo Hipermoderno contra um dos criadores da escola Hipermoderna.
  2. Botvinnik vs. Euwe: Euwe sempre complicava Botvinnik. Aqui ele esmaga o futuro campeão mundial no final, lance a lance.
  3. Euwe vs. Alekhine: A "Pérola de Zandvoort". Jogo 13 do Mundial 1935. Estilo claro, lógica impecável e cálculo cirúrgico de Euwe. A melhor partida dele no match.
  4. Geller vs. Euwe, Zurique 1953: Despedida de Euwe dos torneios de elite. Defesa ativa e sacrifício de torre pra desviar peças. Resultado: Geller vira vítima.
  5. Euwe vs. Najdorf, Zurique 1953: A outra obra-prima de Euwe em Zurique. Em meio ao caos, ele se guia pela intuição, um aspecto do jogo dele que quase ninguém comenta.

Essas cinco partidas estão disponíveis a seguir, tanto para visualização e análises, quanto para baixar.

[Event "Match"] [White "Max Euwe"] [Black "Richard Reti"] [Site "Amsterdam NED"] [Round "3"] [Result "1-0"] [Date "1920.06.??"] [PlyCount "61"] 1. e4 c6 2. b3 d5 3. exd5 cxd5 4. Bb2 Nc6 5. g3 e5 6. Bg2 Be6 7. Qe2 Qc7 8. Nf3 f6 9. O-O Bd6 10. Nc3 a6 11. d4 Nge7 12. dxe5 Bxe5 13. Nxe5 fxe5 14. Rad1 O-O-O 15. Rfe1 h5 16. Na4 e4 17. f3 h4 18. fxe4 hxg3 19. exd5 Bxd5 20. Bxd5 Nxd5 21. Qe6+ Kb8 22. Rxd5 Rde8 23. Qxe8+ Rxe8 24. Rxe8+ Ka7 25. Rdd8 b6 26. Ba3 gxh2+ 27. Kh1 Qf7 28. Re7+ Nxe7 29. Rd7+ Ka8 30. Nxb6+ Kb8 31. Bd6# 1-0 [Event "Hastings 1934/35"] [White "Mikhail Botvinnik"] [Black "Max Euwe"] [Site "Hastings ENG"] [Round "2"] [Result "0-1"] [Date "1934.12.28"] [PlyCount "112"] 1. c4 c6 2. e4 d5 3. exd5 cxd5 4. d4 Nf6 5. Nc3 Nc6 6. Bg5 e6 7. Nf3 dxc4 8. Bxc4 Be7 9. O-O O-O 10. Rc1 a6 11. Bd3 h6 12. Be3 b5 13. Bb1 Nb4 14. Ne5 Re8 15. Qd2 Bb7 16. f4 Nbd5 17. Nxd5 Qxd5 18. f5 Bd6 19. fxe6 Rxe6 20. Bf5 Re7 21. Bh3 Bxe5 22. dxe5 Qxe5 23. Bf4 Qd5 24. Qxd5 Nxd5 25. Bd2 Rae8 26. b3 Re2 27. Rf2 Nf6 28. Ba5 Rxf2 29. Kxf2 Ne4+ 30. Kf1 Ng5 31. Bd7 Re7 32. Bf5 Re5 33. Bb1 Be4 34. Bxe4 Nxe4 35. Rc6 Rf5+ 36. Ke1 Rf2 37. a4 Rxg2 38. Rxa6 bxa4 39. bxa4 Rxh2 40. Ra8+ Kh7 41. Bb6 Ra2 42. a5 h5 43. a6 h4 44. a7 h3 45. Bg1 Nf6 46. Kd1 Ng4 47. Re8 h2 48. Bxh2 Rxa7 49. Bb8 Ra8 50. Rd8 Ne5 51. Bc7 Rxd8+ 52. Bxd8 Kg6 53. Ke2 Kf5 54. Ke3 Kg4 55. Bc7 Nf3 56. Kf2 f5 0-1 [Event "Alekhine - Euwe World Championship Match"] [White "Max Euwe"] [Black "Alexander Alekhine"] [Site "Various Locations NED"] [Round "26"] [Result "1-0"] [Date "1935.12.03"] [PlyCount "93"] 1. d4 e6 2. c4 f5 3. g3 Bb4+ 4. Bd2 Be7 5. Bg2 Nf6 6. Nc3 O-O 7. Nf3 Ne4 8. O-O b6 9. Qc2 Bb7 10. Ne5 Nxc3 11. Bxc3 Bxg2 12. Kxg2 Qc8 13. d5 d6 14. Nd3 e5 15. Kh1 c6 16. Qb3 Kh8 17. f4 e4 18. Nb4 c5 19. Nc2 Nd7 20. Ne3 Bf6 21. Nxf5 Bxc3 22. Nxd6 Qb8 23. Nxe4 Bf6 24. Nd2 g5 25. e4 gxf4 26. gxf4 Bd4 27. e5 Qe8 28. e6 Rg8 29. Nf3 Qg6 30. Rg1 Bxg1 31. Rxg1 Qf6 32. Ng5 Rg7 33. exd7 Rxd7 34. Qe3 Re7 35. Ne6 Rf8 36. Qe5 Qxe5 37. fxe5 Rf5 38. Re1 h6 39. Nd8 Rf2 40. e6 Rd2 41. Nc6 Re8 42. e7 b5 43. Nd8 Kg7 44. Nb7 Kf6 45. Re6+ Kg5 46. Nd6 Rxe7 47. Ne4+ 1-0 [Event "Zurich Candidates"] [White "Efim Geller"] [Black "Max Euwe"] [Site "Zuerich SUI"] [Round "2"] [Result "0-1"] [Date "1953.08.31"] [PlyCount "52"] 1. d4 Nf6 2. c4 e6 3. Nc3 Bb4 4. e3 c5 5. a3 Bxc3+ 6. bxc3 b6 7. Bd3 Bb7 8. f3 Nc6 9. Ne2 O-O 10. O-O Na5 11. e4 Ne8 12. Ng3 cxd4 13. cxd4 Rc8 14. f4 Nxc4 15. f5 f6 16. Rf4 b5 17. Rh4 Qb6 18. e5 Nxe5 19. fxe6 Nxd3 20. Qxd3 Qxe6 21. Qxh7+ Kf7 22. Bh6 Rh8 23. Qxh8 Rc2 24. Rc1 Rxg2+ 25. Kf1 Qb3 26. Ke1 Qf3 0-1 [Event "Zurich Candidates"] [White "Max Euwe"] [Black "Miguel Najdorf"] [Site "Zuerich SUI"] [Round "9"] [Result "1-0"] [Date "1953.09.13"] [PlyCount "73"] 1. d4 Nf6 2. c4 g6 3. g3 Bg7 4. Bg2 O-O 5. Nc3 c5 6. d5 e5 7. Bg5 h6 8. Bxf6 Qxf6 9. d6 Nc6 10. e3 b6 11. Bd5 Kh8 12. Ne4 Qd8 13. h4 f5 14. Ng5 Bb7 15. g4 e4 16. Ne2 Bxb2 17. Nf4 Qf6 18. gxf5 Bxa1 19. Nxg6+ Kg7 20. Nxe4 Bc3+ 21. Kf1 Qxf5 22. Nf4 Kh8 23. Nxc3 Rae8 24. Nce2 Rg8 25. h5 Rg5 26. Ng3 Rxg3 27. fxg3 Rxe3 28. Kf2 Re8 29. Re1 Rxe1 30. Qxe1 Kg7 31. Qe8 Qc2+ 32. Kg1 Qd1+ 33. Kh2 Qc2+ 34. Ng2 Qf5 35. Qg8+ Kf6 36. Qh8+ Kg5 37. Qg7+ 1-0

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