No artigo anterior da nossa série sobre Estratégia, vimos quatro dicas para evitar erros no xadrez. Esta segunda parte fornecerá mais quatro princípios para errar menos e, assim, vencer mais jogos — ou pelo menos perder menos.
O erro de cálculo mais comum no xadrez
Um dos maiores problemas de jogadores iniciantes e intermediários é não conseguir visualizar as mudanças que ocorrem no tabuleiro. Por exemplo, se uma linha começa com Cf3, o cavalo está em f3 agora, mas suponha que ele se move, existe a chance de um jogador esquecer que a peça não está mais ali. Isso também é comum se houver uma troca na linha calculada.
Para evitar esse erro, a cada lance pergunte-se: o que mudou na posição? O seu foco será direcionado para as mudanças sutis que ocorreram, ajudando a evitar o problema da visualização.
Claro que nem sempre é fácil, e até os melhores falham em enxergar a mudança no caráter da posição. Veja o exemplo a seguir.
As brancas estão em desvantagem devido à colocação da torre em g3 e à estrutura de peões fraca. Ainda assim, a posição é defensável. Mas o So quis aproveitar sua torre e jogou o “ativo” 24.f5??. Giri respondeu automaticamente com 24…gxf5?? e, apesar disso, ainda acabou vencendo a partida.
Mas o surpreendente é que ambos os super-GMs ignoraram 24...Bh6!, que daria vitória imediata devido à fraqueza do peão e3. Observe o jogo completo com comentários:
Provavelmente ambos deixaram esse lance passar porque acreditaram que o peão e3, apesar de fraco, era difícil de explorar mesmo depois de 24.f5. Isso tende a acontecer quando não prestamos atenção às mudanças na posição.
Calcule até o fim nas linhas forçadas
A sexta dica é: sempre tente calcular e visualizar a linha forçada até o fim. Não tenha preguiça, nem confie demais em suas habilidades. E como saber se é o fim da linha? Quando não houver mais lances forçados disponíveis.
No exemplo a seguir, Nakamura perdeu uma partida muito importante no Torneio de Candidatos por ter parado de calcular um lance antes.
O último lance de Karjakin foi 29.h4, um lance provocativo que parece enfraquecer sua estrutura de peões. Nakamura não resistiu à tentação: calculou uma longa linha, esperando sair com um peão a mais. Ele jogou 29…Cxg3?? 30.fxg3 Cxd4 31.Bxd4 Bxd4 32.exd4 De3+ 33.Df2 Dxd3.
Karjakin, por sua vez, foi além em seus cálculos, e na posição do diagrama jogou 34.Tc7, ganhando uma peça com ataque duplo. O resto do jogo foi fácil depois disso, e você pode conferir a seguir.
O simples pode enganar
O sétimo princípio é: não perca o foco em posições simples. Parar de calcular em qualquer posição é algo muito perigoso. Basta um cavalo para dar um garfo; basta uma torre ou um bispo para cravar uma peça.
Muitas vezes os jogadores se sentem seguros em finais de jogo, ou em posições mais simplificadas. No exemplo a seguir, Aronian foi um pouco descuidado.
As brancas estão piores devido ao seu peão b3 vulnerável. Além disso, em uma posição aberta, o bispo é mais forte que o cavalo. Mas após 33.g4, a posição ainda pode ser defendida.
Aronian, por sua vez, decidiu socorrer o peão b3 imediatamente, esquecendo que seu cavalo também era um alvo em potencial. Ele jogou 33.Re2?? e perdeu uma peça depois de 33...Bb4! 34.Tc1 Te8 35.f4 f6. Apesar de ter lutado por mais 80 lances, ele não conseguiu salvar a partida.
Um erro não é o fim da linha
Em algum momento o inevitável acontecerá. Você vai errar. Quando isso ocorrer, mantenha a calma. Não caia em depressão, nem se entregue tão rápido. O que acontece depois do erro muitas vezes é mais importante do que o erro em si.
A prioridade é não cometer vários erros em sequência, pois isso é muito comum. Ter errado antes não significa que você tem que continuar errando. Lembre-se que muitas posições ruins podem ser salvas se você for capaz.
Claro que é mais fácil falar do que fazer. Mas veja este exemplo em que Magnus Carlsen não conseguiu manter a calma após um erro.
Esse final está igual. Em termos de peças, Carlsen leva vantagem, mas o peão de a4 é forte e faz Anand igualar. Ambos os jogadores tinham cerca de cinco minutos no relógio nessa partida rápida, quando o campeão mundial cometeu um erro surpreendente: 34.Cxe6?
Anand respondeu prontamente com 34...Tb6, e Carlsen ficou visivelmente chocado. (Você pode conferir a expressão facial e a linguagem corporal dele neste vídeo.) No entanto, o último lance das brancas não alterou a avaliação objetiva da posição. Ainda havia um caminho para a igualdade. Após 35.Rc2! Txd6 36.Cc5 a3 37.Rb3, as brancas eliminariam o peão perigoso e empatariam.
Mas Carlsen não conseguiu se acalmar e encontrar a melhor solução. Ele jogou 35.Cf4?? e a partida seguiu com 35…Txd6 36.Rc2 Tb6! 37.Cxd5 Tb7. Embora, em termos de peças, as brancas ainda estejam em boa situação, seu rei não consegue se aproximar do peão A, e isso custará às brancas seu cavalo. A partida completa está a seguir.
Repito, depois de uma surpresa desagradável, a primeira coisa é se acalmar. Não adianta começar a calcular ou avaliar a posição se você não tiver estabilidade emocional. Você vai precisar encontrar o que funciona para você, mesmo que precise investir algum tempo.
Eis uma lista completa com todas as dicas que vimos:
- Verifique quais peças estão desprotegidas.
- Faça uma lista de todos os lances forçados e confira cada um deles, pelo menos rapidamente.
- Lembre de verificar todas as trocas também.
- Não faça lances naturais imediatamente. Reserve dez ou vinte segundos para revisar seus cálculos.
- Sempre se pergunte: o que mudou no tabuleiro com o(s) último(s) lance(s)?
- Tente calcular as linhas forçadas até o fim.
- Não relaxe em posições simples.
- Acalme-se depois de cometer um erro grave ou passar por uma surpresa desagradável.
Agora você tem tudo para errar menos. Tente colocar em prática aos poucos, e verá uma diferença enorme nos seus resultados.
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