Para muitos, o livro Endgame Manual (Manual de Finais, em tradução livre) é um dos melhores livros de xadrez já escritos. Em 2025, a sexta edição desse clássico foi lançada com prefácio de Magnus Carlsen. Apresentamos aqui uma entrevista concedida por um dos maiores especialistas em finais de xadrez de todos os tempos, o Dr. Karsten Müller, que também foi editor e revisor da obra. A entrevista foi conduzida por Johannes Fischer em 2020 e publicada originalmente no portal Chessbase.
Karsten, você é considerado um dos maiores especialistas em finais de xadrez. Recentemente, foi publicada a quinta edição do lendário Manual de Finais (Endgame Manual), do saudoso treinador russo Mark Dvoretsky, e você foi o editor dessa nova edição. A primeira versão em russo do livro foi lançada em 2002. O que torna esse livro tão especial a ponto de já ter cinco edições?
Karsten Müller (KM): É um dos melhores livros de xadrez de todos os tempos. Ganhou popularidade porque Dvoretsky conseguiu apresentar os conhecimentos sobre finais de jogo de uma forma que torna o estudo divertido.
O livro afirma ser um “Manual de Finais”. Etimologicamente, “manual” descreve “um livro que pode ser carregado na mão”. Será que o Manual de Finais de Dvoretsky é realmente um manual no sentido de ser pequeno e compacto? E será que cumpre a promessa de fornecer informações básicas sobre finais de forma acessível?
KM: Na introdução, Dvoretsky descreveu o objetivo do livro da seguinte forma:
Tudo o que é necessário é um conhecimento profundo de um número limitado de posições “precisas” (em geral, posições elementares), além de alguns princípios, avaliações e técnicas padrão mais importantes. A questão é: como selecionar o material mais importante entre os milhares de finais analisados em diversos manuais? Por isso este livro foi escrito: ele oferece as informações básicas de que você precisa como base para sua própria teoria de finais.
É claro que, agora com 440 páginas, ele se tornou um pouco pesado, mas ainda é bom tê-lo em mãos...
Em que a quinta edição difere das edições anteriores? O que foi acrescentado e o que foi deixado de fora?
KM: Não é possível responder a isso de forma exaustiva em uma entrevista curta. Analisei todos os exemplos e o texto e, em consulta com Alex Fishbein, alterei pequenos detalhes, e corrigi alguns erros de tradução. Mas também gostaria de mencionar algumas questões relacionadas ao xadrez, nas quais os exemplos foram aprimorados e corrigidos:
Antes de sua morte prematura em 2016, Dvoretsky havia criado uma lista de correções, e o Chessable nos deu acesso aos comentários de seus leitores, que haviam estudado o livro e encontrado melhorias e alternativas às soluções de Dvoretsky. Erwin L'Ami também foi prestativo e me enviou um e-mail com análises e observações sobre várias posições. Sua análise da chamada posição de Steckner é particularmente importante.
Em geral, pode-se dizer que as defesas do tipo Vancura foram subestimadas pela literatura antiga. A nova defesa de L'Ami na posição de Steckner (vide 9-168a) é uma defesa do tipo Vancura, semelhante à nova defesa de Anish Giri (vide 9-208e).
Alex e eu verificamos cuidadosamente todos os exercícios do livro. Removemos alguns antigos e também alteramos outros para que houvesse apenas uma solução exata para cada exercício.
Alex também reestruturou toda a discussão sobre Kantorovich/Stecker, que agora ficou mais fácil de entender. A discussão sobre a posição Philidor (9-17a) está agora mais clara e tem mais diagramas – afinal, esta é uma das posições mais importantes de toda a teoria de finais. E o segundo método defensivo de Philidor (que eu costumo chamar de defesa de Karstedt) agora está muito mais claro.
É claro que, em geral, seguimos a nomenclatura de Dvoretsky para os finais e os padrões que ele analisa, mas acrescentamos alguns termos. Um desses termos é shouldering (escorão ou ombrada, em tradução livre), uma manobra que chamo de bodycheck em meus trabalhos. Decidimos incluir o “meu” termo para que os leitores não fiquem confusos ao estudar o Manual de Finais de Dvoretsky e, posteriormente, um dos meus livros ou DVDs.
No capítulo sobre finais de cavalo, também fizemos muitas descobertas, por exemplo, no famoso exemplo Lasker x Nimzowitsch (3-7). Chegamos à conclusão de que uma maioria de peões de 4 contra 3 no flanco do rei neste final apenas oferece boas chances de vitória, mas não é vencedora, como costumava ser afirmado anteriormente. Também destacamos cenários de empate.
Formulamos a regra de Bähr (1-126) de forma mais clara e mencionamos as exceções à regra. O que, aliás, não foi fácil. Foi como formular e provar um teorema matemático. Aqui, Alex e eu tivemos longas discussões até que ambos ficássemos satisfeitos. Foi como trabalhar com Mark – sempre chegávamos a uma solução com a qual concordávamos. E a zona de empate de Rauser (4-2) é apresentada em sua forma completa para torná-la mais clara.
No prefácio da quinta edição, Vladimir Kramnik, excelente jogador de finais, descreve o Manual de Finais de Dvoretsky como um dos melhores livros publicados recentemente. Ele afirma que se trata de um livro tanto para profissionais quanto para amadores. É mesmo? Será que o Manual é um livro para todos?
KM: Acho que Kramnik está certo. Afinal, Dvoretsky destacou especialmente o conteúdo que todos deveriam conhecer, traçando um curso básico de finais menos extenso e ideal para amadores. Os profissionais, é claro, devem aprofundar-se mais, e o livro oferece muito material para isso.
Dvoretsky faleceu em setembro de 2016, mas já em vida tinha uma reputação lendária como treinador. No entanto, dizem que seus livros são muito exigentes. Qual deve ser o nível de habilidade e quanto trabalho é necessário para tirar proveito do “Endgame Manual 5”?
KM: Quanto mais alguém estuda o Endgame Manual, maiores serão as recompensas.
Vale a pena o esforço trabalhar com o Manual Endgame – e será que é divertido?
KM: Acredito que sim, e geralmente eu conseguia convencer meus alunos de que realmente vale a pena.
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| O lendário Mark Dvoretsky |
Até que ponto é útil estudar finais em geral? Sei que muitos treinadores e bons jogadores afirmam que é preciso estudar o final de jogo para melhorar, mas tenho a impressão de que a maioria dos jogadores ainda dedica a maior parte do tempo às aberturas. O que é compreensível, afinal, toda partida tem uma abertura, mas apenas algumas chegam ao final.
KM: Mas os finais ajudam a obter uma compreensão mais profunda do jogo. Os pontos fortes e fracos exatos de cada peça só podem ser estudados em sua forma pura nos finais. Além disso, finais de torre, por exemplo, ocorrem com muita frequência na prática, o que já deveria ser motivo suficiente para estudá-los. E a teoria dos finais quase não muda. Você a aprende uma vez e se beneficia por toda a vida.
No entanto, computadores (engines) aprimorados, como o Fat Fritz, e as bases de dados (tablebases) cada vez maiores transformaram a teoria dos finais. Como isso afetou o Manual de Finais?
KM: Isso teve uma grande influência no livro. Com a ajuda de computadores e bases de dados, encontramos muitos erros em análises anteriores, especialmente em finais de cavalo e de torre. Mas o cerne da teoria do final de jogo permanece praticamente o mesmo, ao contrário, por exemplo, da teoria de aberturas, que está sujeita a modismos.
Você editou o livro em conjunto com Alex Fishbein. Como vocês procederam?
KM: Eu elaborei listas de possíveis alterações, e Alex analisou cada proposta cuidadosamente para verificar se estava correta e se era apropriado alterar a apresentação de Dvoretsky. No final, chegamos a um consenso em todos os pontos. Em consulta comigo, Alex também reescreveu passagens mais longas nas seções sobre finais de cavalo e torre.
Nesse caso, a diferença de fuso horário entre Hamburgo e os EUA acabou sendo uma bênção, e em alguns dias, conseguimos trabalhar por quase 24 horas combinadas. De manhã, muitas vezes eu recebia vários e-mails do Alex e do Hanon [Russell], o editor do Manual, e podia trabalhar nas propostas deles. Quando acordavam, eles podiam ver o que eu tinha descoberto e revisar e verificar minhas propostas. E quando eu ia dormir, eles podiam continuar o trabalho e me enviar os resultados durante a noite.
Já foram escritos muitos livros sobre finais de xadrez. O que distingue o livro de Dvoretsky desses outros livros?
KM: Seu material amadureceu ao longo de décadas, e ele o testou exaustivamente em sessões de estudo com inúmeros alunos. Isso fica evidente no livro. Além disso, ele apresenta uma boa combinação de exemplos, explicações e algumas anedotas.
Você é um entusiasta de finais e já publicou muitos DVDs e livros sobre o assunto. O que o torna tão apaixonado por finais de xadrez?
KM: Tenho doutorado em Matemática, e os finais são como matemática pura com um toque de geometria. Eles têm uma beleza e um fascínio próprios. Se você encontrar uma prova, a questão está resolvida. Eles não seguem caprichos da moda. Analisar a abertura, por outro lado, parece mais matemática estatística, e sempre gostei muito mais de matemática pura.
Você tem algum final favorito? E há algum jogador cuja maneira de jogar finais o fascina em particular?
KM: Gostaria de dar dois exemplos. Ambos estão ligados a erros que cometi. O primeiro é Shirov x Lautier, Munique 1993:
A segunda partida do primeiro Campeonato Mundial entre Karpov e Kasparov, em Moscou, em 1984/1985.
Para quem não tem tempo suficiente de estudar todo o Manual de Finais, quais partes deve ler para aprender os fundamentos mais importantes?
KM: O curso básico elaborado por Dvoretsky, ou seja, as partes marcadas em cinza no livro.
Uma última pergunta: como alguém pode cultivar e desenvolver sua compreensão e apreço por finais?
KM: Recuse ofertas de empate precoces, não evite trocas favoráveis que levem a um final, analise cuidadosamente seus próprios finais, crie seu próprio banco de dados com as posições mais importantes, que você poderá revisar regularmente, e estude bons livros e cursos sobre finais.
***
Apesar de esta entrevista se referir em sua maior parte à quinta edição, a novidade é que o livro ganhou uma sexta edição no fim de 2025, também fruto da edição e revisão de Karsten Muller, e foi expandida: agora conta com 504 páginas.
Magnus Carlsen, o 16º Campeão Mundial, disse em seu prefácio à sexta edição:
Este livro ocupa um lugar muito especial na literatura do xadrez... O Manual de Finais de Dvoretsky vai encher o leitor de alegria e conhecimento, que certamente melhorarão tanto suas habilidades em finais de xadrez quanto a compreensão do nosso jogo real.
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Se você quiser começar a estudar finais, do básico ao avançado, antes de ir para o Manual, um excelente curso está disponível na Udemy:
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O curso é baseado no clássico Silman’s Complete Endgame Course, uma das maiores referências mundiais sobre o tema, livro que nunca foi traduzido para o português. O conteúdo foi cuidadosamente adaptado e organizado de forma didática, respeitando uma progressão que permite ao aluno aprender o que realmente precisa em cada nível, sem excesso de teoria desnecessária.
O que você vai aprender:
- Mates elementares e vitórias fundamentais.
- Finais de peões: oposição, triangulação, regra do quadrado, rupturas, Trebuchet e mais.
- Finais de bispo: cores opostas, fortalezas.
- Finais de cavalo: cavalo contra peões, e quando são melhores que um bispo.
- Finais de torre: posições de Lucena, Philidor e Vancura, além de muitos outros.
- Finais de dama: contra peças menores e contra peões na sétima.
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