O torneio de Moscou em 1925 ficou para a história do xadrez russo, pois além de colocar um russo na disputa pelo título mundial, mostrou a ascensão da Rússia como futura potência do xadrez. A foto em destaque mostra o vencedor do torneio, Efim Bogoljubov, à esquerda e Akiba Rubinstein durante uma partida.
Da revolução ao tabuleiro: o xadrez domina a Rússia
Por volta do início do século 19, quando o xadrez emergia na Europa, quem liderava o cenário era a Inglaterra e a França. Mas o jogo começava a encontrar raízes na Rússia com seus primeiros grandes jogadores: Alexander Petrov (1794-1867), Carl Jaenisch (1813-1872) e Ilya Schumov (1819-1881).
Mais tarde, outros mestres surgiram, mas foi Mikhail Chigorin (1850-1908) que se tornou o jogador russo mais influente do século 19. Ele disputou dois campeonatos mundiais e inspirou muitos jogadores a trilhar o mesmo caminho no século seguinte. Até a primeira metade do século 20, no entanto, o xadrez era algo voltado para a alta sociedade; um jogo da nobreza que requer inteligência. Mas uma reviravolta fez com que o xadrez atingisse o povo comum e se tornasse uma paixão nacional.
Em 1917, após tomar o poder, acabar com o governo czarista e instaurar uma sociedade proletária, os bolcheviques se viram diante da tarefa de reconstruir a cultura russa. Aos poucos reconheceram o xadrez como um esporte intelectual que poderia revitalizar camponeses e trabalhadores explorados por décadas.
O xadrez invadiu a vida comum: clubes, colunas em jornais e revistas e torneios tornaram-se mais frequentes. Três anos após o início do novo regime, foi realizada a Olimpíada Russa de 1920, que mais tarde ficou conhecida como o Campeonato da União Soviética. Alexander Alekhine venceu o evento e se tornou o primeiro campeão soviético.
Alguns bolcheviques amavam o xadrez. O próprio Vladimir Lenin era ávido jogador. Alexander Genevsky, genuíno revolucionário que virou comissário, era um forte mestre. Ele foi o responsável pela criação da primeira Olimpíada, que Alekhine venceu. Mas quem se tornou a figura mais influente nesse meio foi Nikolai Krylenko.
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| Nikolai Krylenko | Fonte: Wikipedia |
Krylenko recebeu tarefas importantes após a revolução. Além de Comissário do Povo pela Justiça e, por um breve momento, Comandante do Exército Vermelho, foi designado chefe da Seção Soviética de Xadrez e Damas. Krylenko buscou reunir os jogadores dispersos pela revolução e defendeu que o governo deveria apoiar os jogadores da elite. Assim, o xadrez passou a ser financiado pelo Estado.
Moscou, 1925: hora da verdade
E o xadrez continuava a crescer. Entre 1923 e 1925, ocorreram mais três campeonatos nacionais. Peter Romanovsky foi campeão nacional em 1923, e Efim Bogoljubov em 1924 e 1925. Ilya Rabinovich foi o primeiro representante soviético em um torneio internacional: em Baden-Baden, Alemanha (1925), ficou em sétimo lugar.
Foi nesse mesmo ano que Krylenko decidiu que era hora de colocar o xadrez soviético à prova: um torneio com os melhores estrangeiros que pudesse reunir. Para representar a União Soviética, os oito melhores jogadores do campeonato daquele ano: Efim Bogoljubov, Grigory Levenfish, Ilya Rabinovich, Boris Verlinsky, Fedor Duz-Khotimirsky, Solomon Gotthilf, Alexander Ilyin-Genevsky e Peter Romanovsky, com posterior adição de mais dois, Fyodor Bohatyrchuk e Nikolai Subarev.
Do outro lado, dez estrelas internacionais: o campeão mundial José Raul Capablanca, o ex-campeão mundial Emanuel Lasker, Frank Marshall, Savielly Tartakower, Carlos Torre, Richard Reti, Ernst Gruenfeld, Rudolf Spielmann, Akiba Rubinstein, Frederick Yates e Fritz Saemisch.
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| Fonte: pjanse.home.xs4all.nl |
A ausência de Alekhine era notável. Anos depois ele escreveu que ficou desiludido com o lento desenvolvimento do xadrez nos primeiros anos após a revolução e não esperava o progresso que viria a ocorrer mais tarde, com Krylenko no comando. Em 1921, Alekhine casou com uma jornalista suíça e recebeu permissão para viajar ao ocidente com ela. Ele nunca voltou. Assim, foi considerado “estrangeiro hostil ao poder soviético”.
Com um capital de 30 mil rubros, o torneio foi o primeiro bancado pelo Estado. De 8 de novembro a 10 de dezembro, uma nação inteira não tirou os olhos da disputa. Mais de mil espectadores acompanhavam cada rodada na Casa dos Sovietes. Milhares aguardavam notícias de Moscou todos os dias. Inclusive, o filme Chess Fever (Febre do Xadrez) mostra imagens reais dos participantes.
Os favoritos eram Capablanca e Lasker. Como ocorreu um ano antes, no torneio de Nova York (1924), esperava-se uma disputa acirrada entre eles. Mas depois de 20 rodadas, foi Bogoljubov que saiu vitorioso, com 15,5 pontos (13V, 5E, 2D). Lasker e Capablanca completaram o pódio.
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| Pontuação completa do torneio |
Com a vitória, Bogoljubov entrou na disputa pelo título mundial. Moscou 1925 foi seu maior triunfo, um dos muitos em sua ascensão após a Primeira Guerra Mundial. Ele também venceu Berlim 1919, Estocolmo 1919, Kiel 1921, Pistyan 1922 e empatou em 1º-3º lugar em Karlsbad 1923. Ele venceria outro grande torneio em Bad Kissingen em 1928.
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| Bogoljubov contra Capablanca | Fonte: Chessbase |
O sucesso retumbante da União Soviética e de Krylenko, fruto de oito anos de trabalho após a revolução, teve um gosto amargi: no ano seguinte Bogoljubov desertou para a Alemanha. Para o desânimo dos soviéticos, ele e Alekhine participariam dos três Campeonatos Mundiais seguintes, com Alekhine conquistando o título em 1927 e Bogoljubov tornando-se seu desafiante em 1929 e 1934. A União Soviética poderia se orgulhar de suas conquistas, mas renegados como eles foram punidos com rejeição.
Durante esses anos, apenas Alekhine e Bogoljubov estavam à altura dos mestres estrangeiros. Krylenko voltou ao trabalho, mais determinado do que nunca na busca por um novo campeão. Em 1935, ele organizaria outro grande torneio em Moscou e encontraria no vencedor, Mikhail Botvinnik, o homem que levaria a União Soviética ao topo.
A União Soviética viria a se tornar a principal potência do xadrez a partir do fim da década de 1940. Mas Krylenko não chegou a ver esse dia. Durante o Grande Expurgo de 1938, Joseph Stalin o destituiu do cargo por supostamente se dedicar mais ao xadrez e ao alpinismo do que às suas funções oficiais. Pior ainda, foi acusado de se envolver em atividades antissoviéticas. Após um julgamento fraudulento, ele foi preso e fuzilado.
Moscou 1925 foi fundamental para o desenvolvimento do xadrez, que deixou de ser um jogo da classe privilegiada na Rússia czarista para se tornar uma ferramenta de propaganda e recuperação nacional no estado socialista soviético. O torneio não apenas produziu um candidato russo ao título mundial, mas também colocou a União Soviética no caminho para se tornar uma verdadeira superpotência do xadrez.
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Alguns jogos notáveis:
1. Capablanca × Zubarev: Capablanca lança um belo ataque baseado em jogo posicional e táticas de curto prazo.
2. Bogoljubov × Verlinsky: Jogando uma abertura hipermoderna, Bogoljubov simplifica e leva para um final favorável.
3. Capablanca × Ilyin-Genevsky: Em um dos raros casos em que Capablanca ataca, Genevsky lança seu próprio ataque na ala oposta. O jogo tenso é decidido por um peão passado.
Fonte: Chessbase





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